O REGRESSO DE TOMMY – 1

Tommy of the Big Top 12,jpgComo já aqui referimos, “Tommy, o Rapaz do Circo” (Tommy of the Big Top) foi uma série em tiras diárias criada por John Lehti e distribuída pelo King Features Syndicate, cuja publicação nos jornais americanos teve início em 28 de Outubro de 1946. A sua estreia em Portugal ocorreu menos de ano e meio depois, no nº 898 (31 de Janeiro de 1948) d’O Mosquito, onde alcançou assinalável êxito, fazendo companhia a outras célebres séries americanas e europeias, com destaque para o Príncipe Valente, de Harold Foster, até ao nº 1156 (22 de Julho de 1950). Já nessa altura O Mosquito se debatia com a forte concorrência do Mundo de Aventuras — lançado no ano anterior, com grande pompa, pela Agência Portuguesa de Revistas, uma empresa cujos êxitos lhe dariam um lugar de destaque no mercado —, e os direitos exclusivos das séries americanas começavam a tornar-se incomportáveis para o orçamento de Raul Correia, que depois da cisão com Cardoso Lopes ficara com o pesado encargo de continuar a publicar O Mosquito.

tommy-ma-68221Foi então a vez do Mundo de Aventuras — por iniciativa de Roussado Pinto, seu novo chefe de redacção, que já trabalhara n’O Mosquito — juntar “Tommy, o Rapaz do Circo” à extensa galeria de heróis americanos que povoavam as suas páginas. E, por coincidência, Tommy estreou-se no nº 62, da 1ª série (19 de Outubro de 1950), ao lado de dois personagens que viriam também a conquistar os favores do público: Mandrake e Tomahawk Tom, este último uma criação portuguesa, pela prolífica dupla Edgar Caygill (Roussado Pinto) e Vítor Péon.

Pouco tempo depois, em 11 de Novembro desse mesmo ano, saiu a última tira de Tommy of the Big Top (inédita no MA). Cansado da árdua rotina da tira diária (ou talvez insatisfeito com os proventos que recebia por essa tarefa), John Lehti resolveu acabar com as peripécias circenses dos seus juvenis heróis, para se dedicar a outros projectos, entre eles uma página semanal baseada em temas bíblicos, com o título Tales of the Great Book, que viria a obter êxito mais retumbante.   

E foi esse o imerecido destino de “Tommy, o Rapaz do Circo”, uma história diferente, cheia de ternura, emoção e peripécias divertidas, que, apesar da sua curta carreira, conquistou o coração dos leitores, jovens e adultos, nos anos 1940 e 1950, mostrando por dentro o maravilhoso mundo do circo, onde a aventura, a acção, o drama e o perigo também estavam presentes, de forma amena e realista.

TOMMY - 155 A 159 copyNos episódios que já anteriormente publicámos, Tommy fazia a sua iniciação na vida do circo como um simples ajudante de Harrison (mais conhecido pela alcunha de “Molho de Carne”), personagem a um tempo simpática e caricata, que tinha o hábito de pregar partidas aos seus colegas, por vezes com maus resultados … mas que Mr. Bingham, o patrão do circo, mantinha no seu posto de trabalho, perdoando-lhe todas as leviandades. Além disso, quando tocava a armar zaragata, sobretudo com elementos de circos rivais que não primavam pelos bons modos nem pela honestidade, Harrison “Molho de Carne” era sempre o primeiro a dar o exemplo, livrando-se tão expeditamente dos seus adversários que até Tommy o seguia sem receio, procurando imitar as suas proezas. Foi assim que os dois, com a ajuda de uma bailarina de outra companhia, conseguiram libertar a sua amiga Sue, raptada pelo famigerado bando de Carney Calson, um meliante sem escrúpulos que se dedicava ao roubo e à chantagem sob a falsa aparência de empresário de circo.     

Tommy of the Big Top 11,jpgPosto isto, as aventuras de Tommy continuam na grande pista coberta (the big top), onde renascem todas as noites o esplendor, o riso, a emoção, o brilho e a magia do “maior espectáculo do mundo”. Recordamos que, no último episódio, Tommy fez a sua estreia na pista do circo, participando no desfile dos artistas, montado num pacífico camelo, mas com tanto azar que escorregou do dorso do animal e quase ia estragando o seu “número”. Valeu-lhe a oportuna intervenção de Holloway, o palhaço de serviço, e da sua mula amestrada, que transformaram o acidente numa cena de hilariante comicidade. Agora, Tommy, convidado por mr. Bingham (que gostou tanto do improvisado “número” como o público), tem uma nova carreira à sua frente…

Leiam seguidamente mais um episódio desta magnífica série, correspondente às tiras diárias com data de 23 de Maio a 9 de Junho de 1947, publicadas n’O Mosquito nºs 933/935 (2 a 9 de Junho de 1948). Uma  nota de rodapé para lamentarmos que a má impressão de alguns números e o mau papel que O Mosquito tinha nessa época não nos permita obter melhores resultados na digitalização deste material.

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RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 3

Das novelas para as legendas, o mesmo método narrativo

Raoul Correia e Cardoso LopesComo novelista em publicações juvenis, Raul Correia foi realmente um precursor, não só ao criar um estilo apreciado por todos os leitores (em que, na harmonia da forma e na icástica simplicidade do verbo, transparecia a influência de Eça de Queirós, o seu romancista favorito), mas, sobretudo, abrindo múltiplos caminhos a uma geração de novos escritores, também exímios no género de aventuras, que apadrinhou e acarinhou como um verdadeiro mestre. Graças ao seu exemplo e ao seu espírito de abertura (secundado por Cardoso Lopes), é que a produção de novelas n’O Mosquito foi muito superior à de histórias aos quadradinhos de autores nacionais, mesmo tendo em conta que entre estes figuravam E. T. Coelho, Vítor Péon, Jayme Cortez, José Garcês e José Ruy, que se estrearam quase todos nas mesmas páginas.

pelo-mundo-fora-mosq-124-902Com a chegada de Lúcio Cardador, Orlando Marques e José Padinha, a presença de Raul Correia como novelista tornou-se mais discreta, no propósito deliberado de dar lugar aos novos. Colaborou também n’A Formiga, suplemento para as meninas dirigido por Tia Nita (Mariana Cardoso Lopes), e noutras publicações das Edições O Mosquito, como Filmagem (onde assinou algumas crónicas com o curioso pseudónimo de João da Lua) e Mosquito Magazine. O cariz diferente desses trabalhos — bem como as impagáveis legendas que escreveu para Serafim e Malacueco e muitas outras séries cómicas inglesas — dão bem a ideia do seu talento e da sua versatilidade.

Também traduziu e adaptou muitas séries de aventuras que ficaram célebres, como Pelo Mundo Fora, O Gavião dos Mares, O Capitão Meia-Noite, O Voo da Águia, Na Pista de Fu-Chong, Os Companheiros de Londres, Ao Serviço da Lei, O Capitão Ciclone, Cuto, O Planeta Misterioso, Pepe Carter e Coco, etc, e colaborou, em estreita união, com E. T. Coelho nalgumas das melhores criações do genial desenhador, nomeadamente Os Guerreiros do Lago Verde, O Grande Rifle Branco, Os Náufragos do Barco Sem Nome, Falcão Negro, o Filho de Jim West, Sigurd, o Herói, O Caminho do Oriente, A Moura e A Fonte, A Moura e o Dragão, A Lei da Selva, Lobo Cinzento, cujas legendas escreveu com inexcedível mestria, numa prosa elegante, emotiva e vigorosa que não ficava aquém da beleza formal e da energia cinética que irradiavam das imagens.

mosquito-253-gaviao-dos-mares904É verdade que não se lhe pode legitimamente atribuir a co-autoria dessas histórias, mas seria lamentável e injusto não reconhecer que sem a sua prosa elas ficariam desfalcadas de um importante elemento, na relação verbo-icónica.

Outro dos seus melhores trabalhos como autor de legendas, que escrevia baseado apenas nos desenhos, sem outro suporte narrativo — no caso das HQ’s nacionais —, está patente em A Casa da Azenha, magistral criação de Vítor Péon, inspirada nos clássicos da “novela negra” americana. Não sabemos se foi Péon (cuja carreira artística muito ficou, também, a dever ao impulso que lhe deu O Mosquito) quem teve a ideia de narrar a história na 1ª pessoa, mas o certo é que esse método típico da literatura policial, sobretudo de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, tornou ainda mais vernácula a prosa de Raul Correia, que para entrar no âmago de uma história, mesmo inventada por outrem, precisava apenas de apelar à sua imaginação.

Há quem o acuse apressadamente de ser demasiado redundante nas legendas que escrevia, mas esses detractores recentes esquecem-se de que as histórias com textos didascálicos tinham dois níveis diferentes (e autónomos) de leitura. Os desenhos, mesmo expressivos como os dos autores ingleses que rechearam os primeiros anos d’O Mosquito, não podiam contar tudo, pois faltava-lhes o discurso directo, parte integrante, hoje em dia, de qualquer história aos quadradinhos.

Como novelista e autor de legendas, Raul Correia procurava acima de tudo descrever fluentemente (e coerentemente) o desen- rolar da acção, sem se preocupar com o excesso de prosa, pondo mesmo em risco, por vezes, a integridade das vinhetas, isto é, dos desenhos. Não era um escritor de meias palavras… para mal dos tipógrafos, mas benefício dos leitores! E isso era qualidade mais do que suficiente para que estes seguissem com tanta atenção e interesse a sequência narrativa como a sequência desenhada.

Foi graças à expressividade do seu verbo e ao vigor do seu estilo que os heróis das histórias “mudas” inglesas ganharam vida, parecendo ultrapassar o limite das vinhetas, de formato geralmente uniforme, como se a acção extravasasse para um espaço mais vasto: o do imaginário narrativo.

Aliás, Raul Correia teve bons discípulos, como Roussado Pinto, Orlando Marques e outros, que também se distinguiram como prolixos narradores, dando primazia, nas HQ’s que criaram, ao texto didascálico ou no interior das vinhetas. Escola de raízes literárias que, durante muito tempo, dos anos 20 até quase aos 80, foi predominante na BD portuguesa do século passado (mas isso será tema para outro trabalho), essa forma narrativa estava intimamente associada à influência do romance (sobretudo o de características mais juvenis) e dos fascículos populares (a chamada literatura de cordel), que antecedeu a influência do cinema e do cartoon na evolução orgânica da Banda Desenhada.

Para Raul Correia, novelista, tradutor e autor de legendas, que abominava os “balões”, o texto descritivo foi sempre a sua linguagem narrativa peculiar.

UMA DATA QUE MERECE SER ASSINALADA

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Ao completar 70 anos de carreira na área da Banda Desenhada, acontece que esta efeméride coincide exactamente com a minha entrada no famoso jornal infantil O Mosquito. Ainda estudante da Escola António Arroio, visitei com o saudoso Mestre Rodrigues Alves as oficinas d’O Mosquito, onde tive o privilégio de conhecer o seu director, o Amigo desde a primeira hora António Cardoso Lopes.

O carinho dispensado na visita viria a confirmar-se quando, em Outubro de 1946, passei a colaborar no jornal que lia desde os oito anos. Soube, mais tarde, que o meu querido Amigo Roussado Pinto tinha também apadrinhado a minha entrada naquele popular bissemanário. Recordo a emoção dos dias que antecede­ram a publicação da minha primeira his­tória, com um título que revelava o fascí­nio que me tinham causado as aventuras de Tarzan e os desenhos do Mestre Burne Hogarth, desenhador americano que vim a conhecer nos anos 80, em Itália, e que foi apresentado pelo Vasco Granja aos dois portugueses presentes, eu e o E. T. Coelho.

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A história «O Inferno Verde», imagina­da por mim, teve o apoio na parte do tex­to desse grande novelista e poeta que se chamou Raul Correia, de quem me lembro com muita gratidão pela amizade e o carinho que sempre me dispensava quando me recebia no seu gabinete de trabalho, no Hotel Avenida Palace.

N’O Mosquito aprendi muito com todos esses amigos e colegas. Mas a vida tem caminhos difíceis e, por isso, o Cortez partiu para o Brasil, o Coelho para França, o Péon para Inglaterra. Eu fiquei, já então na função pública e a trabalhar para vários jornais de Banda Desenhada. Não me encantava a emigração e fui ficando preso à família e ao país. Mas não estou arrependido.

Hoje, quando olho para os meus pri­meiros trabalhos e observo a ingenuidade e as imensas deficiências de alguns deles, nem sempre me lembro de que tinha 18 anos e que a Escola António Arroio não ensina­va desenho de figura. Foi a partir d’O Mosquito que, com o apoio do Mestre Rodrigues Alves e os conselhos de António Cardoso Lopes e Eduardo Teixeira Coelho, iniciei o meu caminho de investigação e estudo, que contribuiu para que hoje seja possível apresentar um balanço positivo ao atingir 70 anos de acti­vidade no mundo da BD.

JOSÉ GARCÊS

Nota: Este depoimento do veterano Mestre José Garcês, que muito nos apraz publicar, devidamente inserido nas evocações dos seus 70 anos de carreira artística, pode servir como intróito da antologia que em breve iremos dedicar-lhe, começando pelo seu primeiro trabalho publicado n’O Mosquito, a partir do nº 762, de 12 de Outubro de 1946: a curta e exótica história de aventuras «O Inferno Verde».

Aproveitamos esta data para endereçar a José Garcês, em nome do nosso blogue, como já o fizemos pessoalmente, as mais jubilosas felicitações pela sua memorável carreira em várias áreas das artes figurativas, incluindo, numa avassaladora percentagem, um dos seus primeiros e maiores amores: as histórias aos quadradinhos. 

IN MEMORIAM

RUI BANA E COSTA (1945-2015)

Leo e Bana costa

Outra infausta notícia acaba de chegar ao nosso conhecimento, por intermédio de Leonardo De Sá. Faleceu Rui Bana e Costa, velho amigo e companheiro frequente de muitas tertúlias, em especial a Tertúlia d’O Mosquito que se realiza anualmente, em meados de Janeiro, para comemorar o aniversário da revista mais popular da BD portuguesa.

Bana e Catarina LimaRui Bana e Costa, além de coleccionador “compulsivo”, sobretudo de BD americana e franco-belga, era também um profundo conhecedor e um grande entusiasta das nossas publicações infanto-juvenis, possuindo no seu acervo algumas autênticas preciosidades, como os dois (raríssimos) últimos números d’O Gafanhoto, revista editada por António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), em 1948-49, depois de abandonar a direcção d’O Mosquito, números esses que foram apreendidos pela censura antes de entrarem em circulação, devido a falhas no registo legal do título.

De humor sadio e espírito aberto e generoso, Bana e Costa estava sempre pronto a esclarecer dúvidas e a facultar todos os elementos e informações que lhe eram pedidos, pondo assim o seu vasto saber e a sua vasta bedeteca à disposição dos amigos bedéfilos. À sua memória prestamos uma singela e sentida homenagem, apresentando as nossas condolências à família enlutada. O funeral realiza-se hoje, às 14h30, no cemitério municipal de Camarate, onde o seu corpo será cremado.

 

BOLETIM – O FANZINE DO CPBD

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RELENDO UM NÚMERO DO BOLETIM,

O FANZINE PORTUGUÊS

HÁ MAIS TEMPO EM PUBLICAÇÃO

Embora tenha passado por Boletim do clube801 muitas e atribuladas fases, o CPBD (Clube Português de Banda Desenhada) ainda mantém o seu espírito associativo, continuando a promover reuniões entre um grupo de sócios mais assíduos e a publicar um fanzine com o título Boletim do CPBD, que em cada número aborda geralmente temas diferentes. Por vezes, o desenvolvimento desses temas obriga a estender a sua publicação por dois ou três números, como é o caso da edição #135, datada de Janeiro de 2013, com um sumário aliciante e ilustrado a preceito.

A coordenação e o arranjo gráfico, como habitualmente, são de Paulo Duarte e a responsabilidade e escolha dos textos coube a Américo Coelho, que tem sido, nos últimos números, um dos mais regulares colaboradores do Boletim, com longos e exaustivos trabalhos de investigação que suscitam sempre o interesse dos leitores pelo meticuloso esforço de pesquisa, informação e análise.

Neste número, Américo Coelho debruça-se sobre um dos temas que mais o apaixonam, ou seja, o vasto e rico historial da revista O Mosquito, nas suas diversas fases e séries, enquadrado num panorama comemorativo dos 77 anos do seu nascimento.

Chegado às bancas em 14 de Janeiro de 1936, O Mosquito foi lido e apreciado por milhares de leitores de palmo e meio — que encontraram nas suas páginas um espírito lúdico e formativo, uma fonte de divertimento e emoção —, tornando-se um caso ímpar de popularidade e prestígio nos anais da imprensa infanto-juvenil portuguesa, a tal ponto que a sua memória ainda hoje permanece viva, conseguindo criar entre antigos leitores e novos simpatizantes laços de amizade e camaradagem que aproximam gerações e esbatem, como no passado, diferenças sociais e culturais.

Mosquito do Ruy n 1Foram esse espírito e essa memória, frutos da acção exemplar e do saber profissional de dois homens verdadeiramente apaixonados pelo seu ofício, António Cardoso Lopes Jr. e Raul Correia, que contagiaram José Ruy (aliás, ele próprio ligado desde muito novo a O Mosquito e ao jornalismo infanto-juvenil), impelindo-o a lançar em 16/11/1960, de parceria com o jornalista Ezequiel Carradinha, uma nova série em que — a par da nostálgica evocação do seu ilustre antepassado, expressa numa fidelidade quase total aos modelos que este propagara engenhosamente  entre a juventude — vibrava o desejo de recuperar algumas réstias da aura mítica associada ao seu triunfal percurso durante o período de maior expansão. 

E assim, reeditando ou revivendo heróis que não tinham caído no esquecimento, como Rob the Rover, Capitão Meia-Noite, Zé Pacóvio e Grilinho, Rudy Carter, James Donald e outros, a 2ª série d’O Mosquito começou a fazer o seu caminho. Mas os tempos tinham mudado, afectando o desenvolvimento social e econó- mico, encarecendo o custo de muitos bens de consumo, provocando desemprego.

A própria guerra do Ultramar, que se desencadeou nessa altura, contribuiu (com o alistamento de muitos jovens) para o fracasso comercial do projecto, mesmo depois da entrada de Roussado Pinto, profissional experiente e amigo de longa data de José Ruy, para o lugar de coordenador, quando Carradinha abandonou a revista.

Mosquito  n 11É essa 2ª série, composta por 30 números — cuja raridade, hoje em dia, os torna ainda mais valiosos para os coleccionadores —, que Américo Coelho analisa metodicamente no seu trabalho, recordando o papel dos dois directores e fundadores d’O Mosquito, mas também de José Ruy, na evolução do jorna- lismo infanto-juvenil, ao qual todos dedicaram muitos anos da sua vida.

O Voo d’O Mosquito recomenda vivamente aos seus amigos a leitura deste número do Boletim, com a primeira parte do exaustivo dossier de Américo Coelho dedicado a um dos principais herdeiros d’O Mosquito, a emble- mática revista cujo nome resistiu à passagem do tempo, enraizando-se solidamente no ima- ginário colectivo de várias gerações.

A fechar a edição, com 76 páginas, pode ler-se ainda um episódio integral da série inglesa “Capitão Fantasma, o Homem dos Mil Disfarces” (Captain Phantom, the World War II Master Spy), desenhado por Mike Western, e que ficou incompleto n’O Mosquito (2ª série).

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78º ANIVERSÁRIO DE «O MOSQUITO»

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Embora, por motivos de força maior, não nos tenha sido possível comparecer, este ano, a mais uma reunião festiva de antigos leitores e simpatizantes d’O Mosquito, próximo da data em que se celebrou o seu aniversário (14 de Janeiro), quisemos associar-nos também a esse evento — organizado actualmente por Leonardo De Sá e Américo Coelho e que se repete já há várias décadas —, publicando n’O Gato Alfarrabista, como em 2013, uma reportagem fotográfica realizada pelo nosso amigo Dâmaso Afonso, a quem agradecemos a amável e preciosa colaboração que nos tem prestado.IMG_1930

O almoço-convívio realizou-se, como habitualmente, numa espaçosa sala do restaurante lisboeta Pessoa, desta vez em 18 de Janeiro, por ser sábado, e contou com numerosos participantes (alguns vindos de longe), entre os quais familiares de António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Eduardo Teixeira Coelho, que com a sua ligação pessoal a estas figuras míticas d’O Mosquito muito têm contribuído para manter viva a tradição, honrando com a sua presença na tertúlia a memória dos seus ilustres parentes.

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Outra presença sempre animada, e imprescindível, é a de Mestre José Ruy, um dos mais prestigiosos colaboradores d’O Mosquito, onde viveu uma das etapas mais importantes da sua aprendizagem como artista gráfico e autor de BD, e que hoje, mais de 60 anos depois, ainda mantém uma assombrosa actividade criativa.

IMG_1934 copyProva disso, a juntar a tantas outras, foi a palestra sobre O Mosquito que por sua iniciativa se realizou, nesse mesmo sábado, às 17 horas, noutro local de Lisboa, a popular Livraria Barata, ponto de encontro de muita gente afecta aos livros e à cultura, onde, com o seu habitual poder de comunicação e os seus vastos conhecimentos sobre técnicas gráficas e outros temas relacionados com a imprensa infanto-juvenil, prendeu a atenção da assistência durante quase duas horas.

Nota: as imagens que a seguir apresentamos foram também captadas pela objectiva de Dâmaso Afonso, sempre presente na cobertura dos principais eventos bedéfilos; excepto as duas primeiras, obtidas por José Rodrigues, da Livraria Barata.

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“O MOSQUITO” EM 1943 – 2

Uma das particularidades que distinguiam as aventuras d’O Mosquito (e que os leitores de hoje poderão até achar rebarbativa) eram os copiosos textos “didascálicos”, isto é, alinhados debaixo das vinhetas, numa sucessão monótona e uniforme que a ausência de balões tornava ainda mais semelhante a uma narrativa ilustrada. Diga-se de passagem que esses textos eram traduzidos, ou melhor, adaptados (e de que maneira!), por Raul Correia, um dos fundadores do jornal, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio), e seu director literário desde o primeiro número. Raul Correia e a fluidez e expressividade do seu estilo foram responsáveis pelo entusiasmo com que a maioria dos leitores acompanhava essas aventuras, deixando-se empolgar tanto pela magia dos desenhos como pela emoção que o texto transmitia às imagens (e vice-versa).

Nesta nova etapa da sua existência, como bissemanário, já não se publicavam n’O Mosquito aventuras do calibre de “O Gavião dos Mares” ou “O Capitão Meia-Noite”, magistralmente ilustradas por um dos grandes mestres da BD inglesa do século XX: Walter Booth. capitc3a3o-ciclone-grandeMas à falta desses verdadeiros clássicos (o segundo dos quais não tardaria a regressar), o público juvenil deleitava-se com as proezas, iniciadas no nº 360, de outro personagem histórico, o “Capitão Ciclone” (aliás, capitão Firebrand), galante e destemido corsário no reinado de Isabel I, época cheia de tradições, fielmente retratada por outro notável artista inglês que trabalhava no anonimato, embora pertencente a uma família de ilustradores e pintores que ficou célebre nos anais artísticos do Reino Unido: Thomas Heath Robinson.

As restantes histórias aos quadradinhos, também de origem inglesa, “O Mistério da Sala 13”, “Ao Serviço da Lei” e “A Torre do Sino”, eram continuação dos números anteriores. Na capa do nº 374, dava-se grande destaque à separata com uma espectacular construção de armar, representando uma aldeia de índios “peles-vermelhas” desenhada por E. T. Coelho (que até nessa modalidade revelava a sua mestria). O êxito foi tal que o versátil artista, seduzido pelo ambiente do Far West, não se ficou por aí, realizando outras do mesmo género.

Graças à gentileza do amigo Carlos Gonçalves, grande especialista destes temas, a quem expressamos o nosso reconhecimento, podemos apresentar seguidamente quatro folhas da referida construção, que teve um total de dez, inseridas nos nºs 371 ao 380.

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Note-se que as separatas com construções (incluindo presépios), jogos e figuras para recortar, eram um dos principais motivos de atracção d’O Mosquito, publicando-se com regularidade desde os seus primeiros números.

O nº 374 incluía ainda uma página de curiosidades, primorosamente ilustrada, e o vigoroso conto “A Lei da Campina”, da autoria de Nuno de Vasconcelos (Príncipe de Haraba), que deu o mote a outra magnífica ilustração de E. T. Coelho, com pleno domínio da forma e dos sombreados, e a mais um sugestivo cabeçalho. Dois números depois, era a vez de uma página em que o Avozinho, num tom de carinhosa emoção, se dirigia a um dos seus mais fiéis admiradores, com o lírico pseudónimo de “O Poeta Vagabundo”.

coisas-e-loisas-21Nos nºs 377 e 378, E. T. Coelho brindou os leitores com mais curiosidades, mas a ru- brica mudou de nome: Coisas… e Loisas.

No nº 375, estreou-se “Um Detective de 15 Anos”, outra aventura do género policial — um dos mais populares entre a rapaziada desse tempo —, cujos desenhos, de singular dinamismo e com acentuados contrastes de branco e negro, pareciam operar uma singular metamorfose no tradicional estilo inglês, aproximando-se da escola expressionista de alguns mestres norte-americanos, em particular Noel Sickles, Alex Raymond e Milton Caniff, cuja influência começava a ser enorme.

Criador de séries de ambiente urbano e índole melodramática que alcançaram grande sucesso n’O Mosquito — como “Maria Ninguém” e “João Sem Rumo”, das quais a seu tempo falaremos —. este desenhador, Arthur Mansbridge de seu nome, foi também um dos mais prolíficos colaboradores dos comics ingleses, na primeira metade do século passado, e pai de Norman Mansbridge, artista que granjeou ainda maior reputação.

louisaEntre os novelistas d’O Mosquito, um dos mais assíduos continuava a ser Orlando Marques, que escrevia num estilo límpido e fluente, imprimindo às suas histórias um raro poder emotivo. No nº 375, assistiu-se ao regresso de Raul Correia — cuja actividade como novelista abrandara para dar lugar aos mais novos —, com uma longa e empolgante novela ambientada no Oeste americano, durante os primórdios da colonização (1813).

“Aventuras de Jim West” foi a primeira história em que o nome de Eduardo Coelho fazia as honras do cabeçalho, aparecendo já como ilustrador. No número seguinte, estreou-se o nome com que ficaria conhecido para a posteridade: E. T. Coelho.

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