NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 2

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Esta foi a primeira capa de Natal que Eduardo Teixeira Coelho (ETC) realizou para o bissemanário O Mosquito, pouco tempo depois de ter feito a sua estreia nas páginas da revista, em cujo quadro de colaboradores nacionais pontificara, até então, o traço simples e a veia humorística de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), salvo nas ilustrações inglesas com que, à falta de outras, se guarneciam os contos e as novelas de aventuras.

natal-poema-do-avozinho309Com a chegada de E.T. Coelho — depois de ter passado pel’O Senhor Doutor e pelo Engenhocas e Coisas Práticas, outra revista concebida e editada por Cardoso Lopes —, o aspecto gráfico d’O Mosquito (que adoptara novo formato a partir do nº 318) sofreu uma reviravolta total, começando pelos sugestivos e alegres cabeçalhos, renovados com frequência (depois da “normalização” seguida por Tiotónio), e pelas capas cheias de acção e movimento, quase sempre inspiradas nas histórias de texto que constituíam parte substancial do sumário — além dos respectivos títulos, das rubricas mais variadas, com curiosidades e passatempos, e dos poemas do Avôzinho (leia-se Raul Correia), ilustrados com poético e decorativo encanto, como o soneto que figurava neste número, a par da secção do correio.

Pode mesmo dizer-se que, sem as magníficas ilustrações de E.T. Coelho, o nº 366, comemorativo do Natal de 1942, seria mais um igual aos outros, embora recheado de excelentes séries inglesas, como O Capitão Ciclone e Ao Serviço da Lei, em que refulgia o talento de dois grandes ilustradores dessa velha escola, à época ainda anónimos: T. Heath Robinson e Hilda Boswell.Capitão Ciclone + Ao Serviço da Lei - Mosquito 366

Mas a “prenda” mais valiosa desta edição de Natal, a primeira de várias com capas de ETC alusivas à festiva quadra, foi, sem dúvida, o Presépio criado também pelo inspirado artista, cuja primeira folha se publicava neste número, inaugurando uma série de construções de armar em que se destacavam a beleza e a perfeição de todas as figuras animadas pelo seu traço, em contraste com o estilo caricatural de Tiotónio ou com o rigor geométrico de Calvet de Magalhães, ambos autores também de várias (e apreciadas) construções.

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Nos números seguintes, saíram as restantes folhas deste Presépio, sem dúvida um magnífico exemplo da versatilidade gráfica do jovem Eduardo Coelho (seu primeiro nome artístico), que nessa fase inicial da sua carreira dava ainda primazia, nas manchas e no contorno bem delineado das figuras, ao uso intensivo e vigoroso do pincel.

Os leitores d’O Mosquito seriam brindados nos Natais de 1943 e 1944 com outros preciosos Presépios (um deles numa folha de grandes dimensões) concebidos pelo genial “poeta da linha”, cujo fulgor artístico não tardaria a guindá-lo a um lugar de honra entre os principais colaboradores do semanário infanto-juvenil português de maior tiragem.  

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 1

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Durante esta quadra festiva, iremos apresentar uma curta série de números de Natal que fizeram as delícias dos leitores d’O Mosquito e de outras publicações infanto-juvenis suas contemporâneas — e com ele, por razões diferentes, directamente relacionadas.

Como foi o caso do Tic-Tac, fundado em 1932 por António Cardoso Lopes (Tiotónio) e João Vicente Sampaio, o primeiro dos quais foi uma das figuras mais proeminentes do jornalismo infanto-juvenil português e um dos pioneiros da BD humorística dos anos 20 e 30 do século XX, autor de inúmeras e patuscas personagens cujas rábulas ficaram célebres, nomeadamente o Zé Pacóvio, uma criação memorável surgida nas páginas do ABC-zinho, d’O Bébé (2ª série), do Có-Có-Ró-Có, do Tic-Tac e d’O Mosquito. No início de 1936, Tiotónio (ou Tio-Tónio) abalançou-se a projecto ainda de maior vulto, criando — com Raul Correia — uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Pois aqui têm a capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas de todos os tempos, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade artística, em publicações infantis, mas que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

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Neste número do Tic-Tac, com 16 páginas, a duas e quatro cores, em que os temas natalícios têm a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luíz Ferreira (Tio Luíz) e ilustrada por Tiotónio, que, além de dar o nome a uma curiosa secção de “engenhocas larocas”, também fez as honras da contracapa, com novas e azaradas peripécias do seu “compadre” Zé Pacóvio… por causa de um velho peru recheado que fez o saloio espertalhão ver a lua e as estrelas!

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Curiosamente, esta página foi inspirada numa historieta de outro grande desenhador humorístico, o mestre espanhol José Cabrero Arnal, publicada pouco tempo antes na revista Pocholo nº 109, copiosa fonte à qual O Mosquito foi beber muitas criações de alguns excelentes artistas do país vizinho, como Moreno, Arnal e Jesús Blasco.

Agradecemos ao nosso amigo Leonardo De Sá — e por seu intermédio a Jordi Artigas, que fez a pesquisa no Pocholo — pela oportunidade que nos proporcionaram de dar a conhecer aos nossos leitores duas versões da mesma história, feitas por autores diferentes, ambos com uma notável carreira artística que prestigiou a BD dos seus países.

Depois de as cotejarmos, leva vantagem a do Tiotónio, por ser a cores e ter como prota- gonista um “herói” de aspecto castiço — como os saloios da Malveira da Serra — que, apesar de não servir de exemplo, fazia rir a miudagem a bandeiras despregadas!

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Em resumo, um número de Natal também bem recheado de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais as rubricas Caçadas e Aventuras, De Tudo um Pouco (por Tiotónio), Para Moer o Juízo (secção charadística) e História dos Portugueses (por Eduardo de Noronha, com ilustrações de Rocha Vieira) — além de um novo episódio da mais empolgante série de aventuras dessa época, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa (Walter Booth) e um herói que viria a tornar-se, tempos depois, uma das figuras mais populares do novel jornal juvenil concebido também por António Cardoso Lopes: o nosso imorredoiro O Mosquito!

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NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 4

roussado-pinto-foto-aFolheando o Jornal do Cuto, a partir do nº 110, onde apareceu pela primeira vez uma rubrica memorialista assinada por Roussado Pinto, com o título em epígrafe, respigámos dessas páginas mais um texto dedicado à revista onde, na sua juventude, depois da experiência fracassada com O Pluto (que não conseguiu resistir por muito tempo à forte concorrência dos seus rivais), o fogoso e idealista editor encontrou um novo posto de trabalho e o apoio profissional de dois dos mestres que mais admirava — apesar de se ter atrevido a “desafiá-los”, imitando sem rebuço O Mosquito em quase todos os seus moldes.

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Nesse texto, publicado no nº 114 (8-10-1975) do Jornal do Cuto, Roussado Pinto evoca uma vez mais, com pitoresco humor, algumas peripécias a que assistiu na redacção (e oficina gráfica) chefiada por A. Cardoso Lopes (Tiotónio), onde tinha a seu cargo, entre outras tarefas, os concursos organizados pel’O Mosquito, com grande participação e entusiasmo dos leitores (como documenta a imagem supra, extraída do nº 812, de 5-4-1947).jornal do cuto 114 546

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 1

O autor “bicéfalo” que escrevia “O Mosquito”

Raul Correia (1094-1985)Com uma prosa inimitável, duma sonoridade quase cristalina, aliada a uma fluência de água corrente e a uma singeleza sem artifícios, capaz de fazer inveja a muitos escritores de maior nomeada, Raul Correia — fundador e director dO Mosquito, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio) — escreveu novelas de todos os géneros, com destaque para as de temática policial, em que criou diversos detectives de primeiro plano (James Donald, Rudy Carter, Ronald Campbell e outros), embora as suas preferências se inclinassem para as aventuras de ambiente histórico, como demonstrou mais tarde, ao tornar-se argumentista, fazendo dupla com o grande ilustrador Eduardo Teixeira Coelho.

Rudy CarterSão poucos os dados biográficos sobre aquele que ficou também conhecido pelo heterónimo de Avozinho — autor de poemas (em prosa e em verso) de lírica sensibilidade, que encantavam e educavam moral- mente a miudagem, a qual (salvo raras excepções) nunca soube o seu verdadeiro nome —, mas o que me interessa sobretudo analisar é o seu estilo novelístico, à luz da minha própria experiência como leitor, desde tenra idade, dO Mosquito.

Deixo para Alexandre Correia, neto do grande novelista e que herdou também a sua veia literária, a grata tarefa de escrever um texto biográfico sobre o avô, cuja companhia partilhou intimamente durante muitos anos. Texto esse que em breve aparecerá, com o devido destaque, n’O Voo d’O Mosquito, recheado de factos curiosos que darão a conhecer algumas facetas mais pessoais daquele que muitos recordam apenas pelo nome de Avozinho.

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mosquito-379-Se a influência do Avozinho foi enorme, embora restringida por longos períodos de ausência, a do escritor Raul Correia, sempre presente em todas as fases dO Mosquito, do primeiro ao último número, mesmo quando não assinava a sua cola- boração, essa foi ainda mais importante. O título que dei a este primeiro artigo (de uma série de onze) reflecte assim, creio que simbolicamente, esse binómio que todos os leitores d’O Mosquito festejavam, sem conhecer a sua raiz comum.

Raul Correia parecia cultivar a famosa máxima de Hemingway: “Uma risca a menos não altera a pele do tigre, mas uma palavra a mais mata qualquer história”. Algumas das principais características do seu estilo, a fluência narrativa, o poder descritivo e a icástica simplicidade do verbo, livre de quaisquer redundâncias estéticas (como hoje parece estar na moda), resultam, além disso, da síntese homogénea entre a forma literária e uma linguagem cinética.

Amanaque o mosquito e a formiga   191Em tudo o que escreveu — mas particularmente nos seus contos e novelas — o ritmo flui dinâmica e harmoniosamente e a acção progride numa sincro- nia absoluta de planos, como os destinatários da sua prosa, ou seja, o público infanto-juvenil, estavam habituados a ver no cinema. Foi esse ritmo cinematográfico que Raul Correia transpôs para o seu estilo novelístico, aliando como poucos a sobriedade da forma à intensidade da emoção.

Um bom exemplo do apurado domínio dessa técnica narrativa — que utilizava também, com outros fins, nos poemas em prosa do Avozinho — é o conto Jim Daddy (Jim Papá, numa tradução à letra), publicado pela 1ª vez no Almanaque O Mosquito e A Formiga, em finais de 1944, quando O Mosquito já ia no seu 8º ano de publicação — e Raul Correia no 10º ano da sua carreira de novelista —, e reeditado, quase quatro décadas mais tarde, no Mundo de Aventuras nº 429 (2ª série), de 31 de Dezembro de 1981, com ilustrações de Augusto Trigo.

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Refira-se, a propósito, que a primeira versão desse conto foi ilustrada por um dos mais talentosos colaboradores artísticos d’O Mosquito, Vítor Péon, que entrou ao serviço do popular bissemanário em Abril de 1943, pouco tempo depois de E.T. Coelho — a quem coube a tarefa de ilustrar, substituindo com as suas pujantes imagens as de anónimos desenhadores ingleses, alguns dos melhores originais de Raul Correia, com destaque para a longa novela “Aventuras de Jim West”, recebida pelos leitores com grande entusiasmo.

Quanto a Jim Daddy é talvez o conto de acção em que, de forma mais emotiva, perpassa a “sombra” do Avozinho — numa dualidade que, às vezes, transparece, como por acaso, noutras obras de Raul Correia.

Aqui têm, pois, uma pequena “jóia” do conto policial, como exemplo dessa transfusão de estilos, que aos leitores mais argutos d’O Mosquito deu certamente razões para pensarem na verdadeira identidade do Avozinho.

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O MOSQUITO EM 1943 – 8

mosquito-1943-8-nc2ba422-961A partir do nº 422, o grande salto qualitativo d’O Mosquito, iniciado no ano transacto, desde o nº 360, com a primeira das espectaculares capas ilustradas por E. T. Coelho, atingiu um nível ainda maior, repercutindo-se na tiragem, na popularidade e na difusão da revista, que era lida em todos os cantos de Portugal e por miúdos de todas as origens, ricos e pobres.

Depois de tantas novidades, esse número e os seguintes ofereceram aos leitores alguns dos melhores contos e novelas de Raul Correia, como “Noite Tranquila” — que assinalou o regresso, embora breve, de Rudy Carter, um dos seus mais emblemáticos e apreciados detectives —, “A Emboscada” e “O Navio Negro” — duas aventuras de ambiente histórico, em que ao primor do estilo e à emoção do enredo se somava o fascínio dos cenários e das personagens —, como sempre magistralmente ilustrados (advérbio que já parece supérfluo) por Eduardo Teixeira Coelho, cujos versáteis dotes artísticos, em constante evolução, tinham cada vez mais admiradores, surpreendendo até os que olhavam de forma acrítica para esses trabalhos, sem saberem que o seu autor era ainda um jovem de 24 anos, pouco mais velho do que alguns deles que já andavam nos últimos anos do liceu.

Merece também referência, tanto pelos desenhos como pelo texto, o conto “Um Valente”, original de Lúcio Cardador, que seria a sua última produção literária publicada durante essa fase d’O Mosquito, por razões que mais tarde abordaremos.

mosquito-1943-8-para-ti-amigo-leitor-0031Algumas úteis secções ilustradas por E. T. Coelho continuavam também a aparecer regularmente, como “Carpintaria Aplicada”, que ensinava a fazer estantes, secretárias e outros móveis de estilo moderno (para a época). E até Tiotónio (A. Cardoso Lopes Jr.) deu um ar da sua graça ilustrando uma página assinada por “Cocabichinhos”, com instruções para os jovens campistas.

Nessa etapa que reservava ainda muitas surpresas, O Mosquito continuava a publicar com grande sucesso as façanhas do intrépido e misterioso Capitão Meia-Noite, juntamente com outra criação de Walter Booth, “Luta sem Tréguas”, que tinha como cenário o Oeste americano, às quais fazia companhia — além de algumas histórias italianas desenhadas por Giorgio Scudellari (“Ivan, o Terrrível”) e Giuseppe Cappadonia (“Os Piratas da Polinésia”) — outro vibrante western, intitulado “Falsa Acusação”, o primeiro êxito da carreira artística de Vítor Péon, que se estreara no nº 396 e teve o seu epílogo no nº 423.  

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Mas a mais sensacional novidade — que se tornou um marco de fundamental importância na história d’O Mosquito, ao abrir-lhe as portas de uma nova escola europeia recheada de grandes valores, capazes de rivalizar com E. T. Coelho (e até de lhe servirem de modelo) —, chegou no nº 424, de 17/7/1943, com a estreia de Emilio Freixas, um autor espanhol de traço elegante e estilizado, já famoso no seu país e cuja obra seria também muito apreciada e aplaudida em Portugal, graças ao Mosquito e ao Diabrete. Desse grande acontecimento falaremos com mais detalhes no próximo post desta série.

O MOSQUITO EM 1943 – 7

A partir do nº 410, publicado em 29 de Maio de 1943, os problemas com a aquisição de papel, que a guerra tornara um produto extremamente raro e cada vez mais valioso, pareciam ter-se atenuado e até a qualidade melhorou, deixando de aparecer papel de cor e tão fino que as imagens e as letras se viam à transparência.

mosquito-43-um-herc3b3i-de-17-anos-1-6422Nesta série de 10 números que hoje passamos em revista (do 412 ao 421), as capas d’O Mosquito, embora mantendo o mesmo cabeçalho, voltaram a enfeitar-se com cores garridas, que realçavam o deslumbrante e sedutor grafismo das ilustrações cada vez mais pujantes e dinâmicas de E. T. Coelho, em contraste com a monótona e insípida bicromia de alguns dos números anteriores.

 Acabada a longa novela de ambiente exótico “Sunyana, o Rebelde”, assinada por Robert Bess (Roberto Ferreira), regressaram logo a seguir os contos, não menos empolgantes, de Orlando Marques e Lúcio Cardador, secundados por mais uma história de guerra de A. S. Lopes (Augusto Simões Lopes, irmão de António Cardoso Lopes (Tiotónio), e por uma aventura africana, de autor desconhecido, todos magnificamente ilustrados por Eduardo Teixeira Coelho. O talentoso desenhador, que ainda não completara 25 anos, mosquito-43-correios-de-todo-o-mundo-680continuava a rechear O Mosquito com ilustrações de todos os géneros — abrangendo pequenos anúncios, rubricas de curiosidades e de trabalhos manuais, como já fizera no Engenhocas, outra revista das Edições O Mosquito, orientada por Tiotónio —, numa demonstração de grande versatilidade, tanto no estilo infantil e humorístico como no aventuroso e realista. Pela primeira vez, até os cabeçalhos dos contos e das novelas de aventuras, pela sua forma inspirada e inovadora, desde o desenho harmonioso das letras ao arranjo gráfico, suscitavam o interesse e a admiração dos leitores, aflorando também como trabalhos que mereciam ser valorizados no cômputo geral da revista.

mosquito-43-mosquito-106-6441Mantinham-se em publicação duas histórias aos quadradinhos inglesas, “O Capitão Meia-Noite” (cuja 1ª série se tinha estreado no nº 106, de 20/1/1938), e “Luta Sem Tréguas”, ambas do mestre Walter Booth — embora na segunda despontasse, por vezes, a intervenção de um medíocre colaborador —, enquanto que, pelo lado português, o vibrante western “Falsa Acusação”, do jovem e promissor estreante Vítor Péon, continuava a fazer-lhes honrosa companhia. No nº 417 surgiu uma nova história italiana, com o título “Ivan, o Terrível”, ilustrada sem grandes rasgos, mas com artesanal eficácia, por Giorgio Scudellari, cujo estilo já se tornara familiar aos leitores d’O Mosquito. Além disso, o episódio lia-se com interesse, destacando-se pelo seu enredo como um dos melhores dessa série.                                           

mosquito-43-separata-cary-grant-645Como já referimos, o airoso e popular bissemanário, a par das habituais folhas com construções de armar, tinha começado a inserir no nº 409 uma série de pequenas separatas de género muito diferente, com fotografias de artistas de cinema (alguns dos quais são recordados e admirados ainda hoje). Noutra rubrica, com mais informações sobre O Mosquito, satisfaremos a curiosidade dos nossos leitores cinéfilos, apresentando na íntegra essa colecção de raríssimas separatas.

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O ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO… HÁ 29 ANOS

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Quando passaram 50 anos sobre a data de nascimento d’O Mosquito ainda não havia Internet nem a “febre” das redes sociais e dos blogues que hoje cobrem e discutem todos os acontecimentos de relevo nas áreas da cultura, do desporto, da política (e em muitas outras), mas estava ainda em publicação a última série da mais famosa revista juvenil portuguesa, ressuscitada dois anos antes pela Editorial Futura, sob a direcção do malogrado dr. Chaves Ferreira, médico de profissão, amante das letras e da BD.

mosquito-50-anos-mosquito-nc2ba-12488Foi por sua iniciativa que um numeroso grupo de colaboradores dessa série (a quinta, no quadro histórico e cronológico d’O Mosquito), a que se juntaram outras figuras — algumas também já desaparecidas, como António Homem Christo, António Costa Ramos, Augusto Simões Lopes, António Barata e Lúcio Cardador —, se reuniu junto da antiga sede das Edições O Mosquito, onde funcionavam também as suas oficinas, na Travessa de S. Pedro, nº 9 (contígua ao Jardim de S. Pedro de Alcântara), e depois num restaurante do Bairro Alto para celebrar essa data histórica e, ao mesmo tempo, dizer adeus à nova série, cujo último número se publicou nesse mês de Janeiro de 1986.

Mosquito faz véniaO encontro promovido em pleno coração da imprensa lisboeta e o simbolismo da efeméride não passaram despercebidos a alguns jornais, como foi o caso do Diário de Lisboa e do Diário Popular, vespertinos na altura ainda em circulação, que no dia seguinte, 15 de Janeiro, publicaram com assinalável destaque as notícias que seguidamente reproduzimos.

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Mesmo sem Internet, Facebook, Google, Twitter, TV por cabo e outros avanços tecnológicos dos meios de comunicação que desde essa época se registaram a espantosa velocidade, um facto merece ser sublinhado: nos anos 80 do século XX (e até em décadas anteriores) os jornais davam mais importância à Banda Desenhada, como forma moderna e transversal de arte figurativa popular, do que dão hoje.

Mosquito ao guardachuvaMas os encontros entre gerações de leitores entusiastas, estudiosos, colaboradores e coleccionadores d’O Mosquito, esses não se extinguiram, nem o sentimento especial que Cardoso Lopes e Raul Correia, com o seu papel lúdico e educativo (mas distanciando-se da escola e da pedagogia), fomentaram numa larga camada da juventude portuguesa — que, por sua vez, o acalentou, num recanto nostálgico da sua memória, e o transmitiu no tempo, partilhando-o, pelo espírito e pelo exemplo, com as gerações futuras.

Nota: Queremos também recordar e prestar homenagem ao nome de Estrompa, outro colaborador d’O Mosquito (5ª série) que já não está entre nós.

Mosquito 50 anos - Mosquito nº 12 B489