OS MOSQUITOS, O PAPA E A HIGIENE

Ouvimos, ainda não há muito tempo, o Papa Francisco, de visita a alguns países africanos, declarar que tinha mais receio das picadas dos mosquitos que dos ataques terroristas, numa altura em que todas as atenções estavam concentradas na ameaça que representam os grupos de fanáticos islâmicos, cujos atentados têm provocado inúmeras vítimas em vários pontos do mundo.

Ora as afirmações do Sumo Pontífice deixaram-nos um pouco tristes, porque somos defensores dos mosquitos, mesmo daqueles que têm pior fama e que todos consideram, vulgo vulgaris, como maléficos e indesejáveis. Coitados, eles não têm culpa de ser assim, ao contrário dos terroristas que matam indiscriminadamente em nome do seu fanatismo religioso. É verdade que os mosquitos também gostam de sangue e que é através do sangue que transmitem muitas doenças aos seres humanos. Há cerca de dois anos até apareceu uma nova e mortífera praga causada por mosquitos de uma espécie baptizada com um nome esquisito (que toda a gente pronunciava com temor): Zika!

Mas, tal como nós, eles são seres vivos que fazem parte da maravilhosa rede da Natureza e que, se fossem totalmente exterminados, fariam decerto falta ao equilíbrio dessa imensa e intrincada rede, em que todos têm uma função específica a desempenhar em prol da sobrevivência comum. Isto pode parecer um paradoxo, no que toca aos mosquitos e a outras espécies nocivas para a humanidade, mas estamos certos de que a Natureza sabe o que faz!…

É claro que nem todos os mosquitos têm uma fama tão detestável, pela simples razão de que há um Mosquito nascido em 1936, numa humilde tipografia, que foi durante algumas décadas o encanto e o companheiro inseparável da juventude portuguesa. E vocês sabem bem que o seu simpático nome logrou até vencer a barreira do tempo e do esquecimento e chegar aos nossos dias revestido da mesma relicária fama de outras eras!

Mas vem este intróito a propósito de um curioso opúsculo que encontrei, em tempos, numa banca de livros usados, e que tem uma idade ainda mais venerável que a do nosso bem-amado O Mosquito, pois foi impresso em 1927 e editado pela Cruz Vermelha Portuguesa, a partir de uma idêntica versão americana. Recheado de belas ilustrações — embora num estilo também antiquado — e de eficientes conselhos de saúde, destinava-se às crianças, alertando os responsá- veis pelo seu bem-estar para um certo número de práticas e de cuidados hygiénicos que era preciso seguir naquele tempo (e, em muitos casos, ainda hoje) para prevenir os malefícios e as doenças mais comuns.

Como já tem 90 anos, é natural que a sua ortografia nos pareça, nos tempos de hoje, um pouco estranha e até quase incompreensível. Damos como exemplo o seu próprio título: Princípios de Hygiene. Mas vale a pena folheá-lo atentamente, apreciando os seus conselhos e as suas inúmeras ilustrações. Nalgumas páginas surgem advertências contra as moscas e os mosquitos malfazejos propagadores de doenças que podem causar a morte a outros seres vivos, sobretudo  aos humanos, como a malária e o paludismo. Por isso, não admira que eles figurem numa lista negra, como os mais perigosos terroristas que enxameiam o mundo moderno.

Já aqui dissemos o que pensamos dessa gente. Quanto aos mosquitos que gostam de sugar o nosso sangue, esses devemos também evitá-los, mas olhando-os de outro modo, talvez com mais tolerância, porque, no fundo, têm tanta consciência do mal que nos fazem como da sua própria razão de existir.

E aqui ficam, para vosso conhecimento, algumas ilustrações do antiquíssimo fascículo com que a benemérita Cruz Vermelha presenteou os cidadãos americanos, franceses e portugueses (e certamente de outros países), numa época em que o Papa Bergoglio (ou Francisco, como todos o tratam) ainda não era nascido.

Por curiosidade, fiquem a saber que ele veio ao mundo no mesmo ano que o nosso O Mosquito… o que é, sem dúvida, uma boa coincidência!

 

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