CUTO, HERÓI DE UMA GERAÇÃO – 3

mosquito-531-cuto-753Depois de “O Ardina Detective”, cujo êxito excedeu todas as expectativas, Cuto tornou-se a nova “coqueluche” dos leitores d’O Mosquito. As duas grandes aventuras publicadas seguidamente no jornal infantil português de maior tiragem dessa época, “Sem Rumo” e “O Mundo Perdido”, eram também oriundas do semanário Chicos, onde surgiram durante os anos de 1941 a 1943, com o mesmo título em versão espanhola: “Sin Rumbo” e “El Mundo Perdido”.

Jesús Blasco deu um grande salto em frente nestes episódios, demonstrando já um perfeito domínio dos códigos narrativos das histórias realistas (lembremos que ele começou a sua carreira como desenhador humorístico, bastante influenciado pelo estilo de Floyd Gottfredson, Ub Iwerks e outros colaboradores dos Estúdios Disney), ao mesmo tempo que dava também largas ao seu gosto pelo mistério, o horror e o fantástico.

Todos esses “ingredientes”, que Blasco soube manipular com mestria noutras aventuras de Cuto, como “O Castelo do Terror”, “Tragédia no Oriente” e “A Ilha dos Homens Mortos”, transformaram o cenário e o argumento de “Sem Rumo” e “O Mundo Perdido” numa espécie de “pesadelo” exótico, capaz de deixar os leitores sem fôlego em muitas cenas em que o horror e a crueldade estão bem patentes e as vidas de Cuto e dos seus parceiro(a)s de aventuras parecem presas por um fio, naqueles recônditos e sinistros domínios, governados por tiranos (uma ilha perdida do Pacífico e o misterioso reino egípcio oculto sob as areias do deserto), onde todos os perigos, incluindo os da natureza, se conjuram contra eles. E será sempre assim nas posteriores aventuras de Cuto, sobretudo as de maior importância, como uma melodia fúnebre que repete sistematicamente as mesmas notas…

Por outro lado, é de realçar (fruto de uma rápida e notável evolução) o uso frequente de onomatopeias e de balões ideográficos, assim como o tratamento mais realista que Blasco começava a dar aos ambientes e aos personagens secundários — estes, às vezes, com um papel tão destacado como o de Cuto —, em contraste com os traços caricaturais que o seu pequeno e fogoso aventureiro continuava a manter, imitando outros heróis (sobretudo na BD americana) de personalidade muito semelhante.

Apresentamos seguidamente mais duas páginas do jornal O Louletano — onde se inseria a magnífica rubrica 9ª Arte, coordenada pelo nosso saudoso amigo José Batista (Jobat) —, com a conclusão da aventura “Cuto em Nápoles”, inicialmente publicada n’O Gafanhoto, entre os nºs 10 e 17 (Janeiro-Março de 1949), cujas páginas também aqui se reproduzem.

A título de curiosidade, repare-se na última vinheta desta história, com uma imagem que podemos apelidar de natalícia, diferente da que surge na versão publicada pel’O Louletano. Tudo indica que essa imagem foi alterada mais tarde por Jesús Blasco, a pretexto de alguma reedição, nomeadamente a que foi dada à estampa na Colecção Jaguar nº 2 (Novembro de 1971), edição da Portugal Press — publicada também no Almanaque O Mosquito 1984, de onde foi extraída a d’O Louletano. A versão original de “Cuto em Nápoles” surgiu no Almanaque Chicos 1948, publicado em finais do ano anterior.

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