CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 4

Durante os seus primeiros cinco anos de existência, o aspecto gráfico d’O Mosquito pouco mudou. Com apenas oito páginas (mais quatro, durante um breve período), recheadas de histórias aos quadradinhos inglesas, contos e novelas ilustrados também com gravuras inglesas e os poemas do Avozinho, que eram lidos com tanto interesse como o resto do sumário, O Mosquito conseguiu impor-se a todos os seus concorrentes, conquistando um lugar cada vez mais proeminente no panorama da imprensa infanto-juvenil dessa época.

mosquito-201-784A guerra em curso na Europa dificultava também, como era inevitável, a vida dos portugueses, agravando, no caso particular dos jornais, o custo do papel e de outras matérias-primas, com cuja escassez O Mosquito e os seus congéneres se debatiam semana após semana. Parece quase um milagre que, numa altura em que muitas pessoas tinham de fazer bicha para comprar pão, leite e outros alimentos, as máquinas impressoras continuassem a trabalhar, fornecendo aos ávidos leitores juvenis uma espécie de “maná” que servia de alimento ao seu espírito e de lenitivo aos temores que as notícias dessa guerra longínqua infundiam aos mais timoratos.

Em Novembro de 1939, ignorando o que se passava bem perto das nossas fronteiras, com os fantasmas da guerra já a rondarem alguns países europeus, O Mosquito deu um passo de gigante que lhe permitiu consolidar ainda mais o seu lugar de líder no mercado, com uma tiragem que fazia inveja a todos os concorrentes — incluindo os que tinham nascido antes dele, como O Senhor Doutor e O Papagaio.

Com efeito, foi nessa data que se mudou para as suas novas oficinas gráficas, na Travessa de S. Pedro nº 9, em Lisboa (perto do jardim e miradouro de S. Pedro de Alcântara), onde ficaram, também instalados os seus escritórios e armazéns, pois o amplo rés-do-chão de um prédio que era pertença da família de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) tinha espaço para tudo.

A partir desse histórico momento, não só o seu aspecto gráfico melhorou como pôde aumentar o número de páginas, que passaram de oito para doze (mantendo a separata com uma construção de armar), e incluir outros melhoramentos, como  a nova rubrica dedicada à colaboração dos leitores (onde se estrearam, pouco depois, dois grandes novelistas, Orlando Marques e Lúcio Cardador), e mais histórias ilustradas pelos melhores artistas ingleses, que não tardaram a cotar-se entre os seus maiores êxitos: “O Voo da Águia” (por Reg Perrott), “Serafim e Malacueco” (por Percy Cocking) e “Pedro de Lemos, Tenente, e o Manel, Dez Reis de Gente” (por Roy Wilson).

mosquito-206-a-786A cor, que até então tinha sido sistematicamente monocromática, diversificou também a sua gama, tornando mais garridas algumas capas, a partir do nº 201, de 17/11/1939. Foi essa a primeira experiência policromática — ainda não totalmente conseguida, como os próprios editores reconhe- ciam no editorial desse número  — realizada por Cardoso Lopes na nova máquina onde era impresso O Mosquito, uma moderna Rollan, importada da Alemanha, que imprimia as páginas do jornal a uma velocidade nunca vista e com uma perfeição que, ultrapassadas as primeiras e notórias deficiências, deu um ar ainda mais atraente ao simpático “insecto” de papel, que se intitulava o “Mosquito” mais bonito de Portugal, do Minho ao Algarve.

A impressão em offset a três cores voltou a engalanar as capas d’O Mosquito nºs 206 (especial de Natal, com uma ilustração da ilustre artista Raquel Roque Gameiro) e 222, de 11/4/1940; neste o cabeçalho também mudou, ostentando um desenho de Cabrero Arnal, criador do famoso Cão Top, em vez da usual figura do “Mosquito” desenhada por Cardoso Lopes. Mas os tempos não estavam para folias e, por isso, a rotina voltou a instalar-se com o regresso das duas cores, na capa e na contracapa, quebrada apenas no nº 318, de 12/2/1942, primeiro de uma nova etapa, com O Mosquito a dar outro gigantesco passo em frente, apesar do formato ter diminuído, intitulando-se agora “formato de guerra”. Mas isso é outra história…

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