HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 6

Avô Raul capa

VI

Depois de Benfica, os meus avós viveram uns anos na casa da minha tia Fernanda (a Bijéu), que na altura estava fora do país por motivos profissionais. Esta casa, na Rua Carlos Mardel, ali ao Areeiro, foi igualmente uma segunda casa para mim e foi neste período que comecei a ler muitas das suas coisas e a ganhar consciência, talvez ainda inconsciente, da importância do seu trabalho. Foi nesta casa que tive a certeza de que a minha vida futura passaria pelo desenho e pela escrita. Foi também nesta casa que, uma noite, a minha avó descobriu que eu partilhava um sinal vermelho com o meu avô, exactamente no mesmo sítio do corpo! Um sinal de sangue, como lhe chamam…

Recordo-me com nitidez da cortesia e do “cuidado” com que falava sempre aos empregados de mesa do Isaura, o restaurante na Avenida de Paris onde íamos jantar habitualmente, e da deferência carinhosa que todos lhe prestavam. Também este restaurante ainda funciona e mantém o nome.

A única memória má desta casa foi um ligeiro AVC que a minha avó sofreu e que deixou leves sequelas durante um período de tempo. Felizmente, o seu estado foi melhorando, até recuperar totalmente a lucidez e a tenacidade.

Uma característica teimosa do meu avô era a sua recusa absoluta de ir a médicos. “Se estiver a morrer prefiro não saber”, costumava dizer… É certo que não me lembro de o ver doente. Já nos “setentas”, continuava a trabalhar com o mesmo prazer e energia nos Amigos do Livro e em traduções. Ia para Miraflores todos os dias, em dois transportes diferentes e voltava da mesma forma, muitas das vezes para se sentar à frente da Olivetti e continuar o trabalho, noite dentro!

Entretanto, a minha tia voltou e os meus avós mudaram-se para Santo Amaro de Oeiras, muito perto da casa do meu tio Mário, que tinha uma vivenda com um jardim, onde me lembro de nós os três fazermos tiro ao alvo com a sua “pressão de ar”, uma “Diana 25”. Por falar em tiro ao alvo, talvez poucos saibam que o meu avô era um excelente atirador, tendo mesmo recebido uma medalha num campeonato de tiro! Fiquei com a sua medalha. Durante a permanência na “Linha”, quantas vezes “obriguei” os meus pais a levarem-me de Lisboa para Oeiras, só para dormir na casa deles! Nas férias nem se fala, até porque tinha um quarto para mim…

Nesta casa, o meu Avô apagou 75 velas e recordo-me da festa especial que lhe fizeram, com poemas e textos que os filhos lhe escreveram, leram e dedicaram!

Fotos 1

Como decerto já notaram, os meus avós mudavam frequentemente de casa! Antes de Benfica, viveram na Av. Manuel Damaia, na Rua do Zaire, no Bairro das Colónias, em Oeiras, na Av. Almirante Reis, na Amadora… Mas essas casas não conheci… Este facto deveu-se a uma mania da minha querida avó, que não conseguia estar muito tempo no mesmo sítio! Ao meu avô, que acedia a todos os seus desejos — menos o de ir ao médico — não lhe restava alternativa a não ser arrumar a trouxa e mudar-se para novo poiso! Com os filhos sempre por perto…

Já ambos na segunda metade dos setentas, os meus avós foram viver para casa da minha tia Adelaide, para poderem gozar os últimos anos de vida com companhia sempre por perto. Como alguns saberão, assim foi… Seria a sua última morada.

Lembro-me de irem entrevistar o meu avô sobre O Mosquito a esta casa, que fica por detrás da Av. de Roma, na Rua Conde Sabugosa, e onde vive ainda a minha tia com a bonita idade de 83 anos, mas aparentando menos vinte! A fotografia do meu avô que aparece na entrevista do nº 1 da última série d’O Mosquito foi tirada na sala de jantar desta casa.

Continuei a vê-los quase todos os dias, porque almoçava sempre lá vindo do Liceu e voltava ao fim do dia para ir ter com os meus primos e amigos do bairro. Aliás, e como seria de esperar, a casa dos meus tios tornou-se no ponto de encontro diário de toda a família. Para terem uma ideia da animação que ali reinava, deixo-vos uns números daquela altura: oito filhos com os respectivos maridos e mulheres, em visitas regulares e por vezes diárias, mais vinte e três netos e dois bisnetos a “circular” por ali!

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