AS EXPOSIÇÕES DO CPBD (1) – “TRIBUTO A EDUARDO TEIXEIRA COELHO”

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Como já largamente noticiámos neste blogue, realizou-se no dia 16 de Janeiro p.p. um grande almoço-convívio comemorativo dos 80 anos de nascimento d’O Mosquito, com a presença de mais de meia centena de bedéfilos, a maioria dos quais antigos leitores e simpatizantes da mais emblemática revista da BD portuguesa, cuja mítica fama atravessou gerações, num exemplo (quase) sem paralelo entre nós.

Mais tarde, na sede do CPBD, à Reboleira (Amadora) — um clube renascido, transfigurado, que quer recuperar os seus pergaminhos, projectando-se com nova dimensão no futuro —, realizaram-se outros assinaláveis eventos, integrados no mesmo festivo calendário.

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Depois de um notável e animado colóquio proferido por Mestre José Ruy, sobre o tema “Como eu entrei para O Mosquito”, que a assistência seguiu com vivo interesse, foram inauguradas as exposições “Tributo a Eduardo Teixeira Coelho” — mostra alusiva aos primeiros trabalhos de ilustração deste genial artista, que rechearam muitas novelas da autoria de José Padinha, Orlando Marques, Raul Correia e outros colaboradores literários d’O Mosquito — e a que ocupa a sala principal do CPBD, desdobrando em dezenas de painéis um abrangente panorama da longa carreira de uma intemporal revista, que marcou de forma indelével a história da BD portuguesa, durante os seus 17 anos de existência (na 1ª série)… tendo tido, até hoje, mais quatro “reincarnações”, de longevidade variável.

Só é pena que nos expositores com ilustrações de E.T. Coelho — bem concebidos e apresentados, como se pode ver nas fotos, tendo ao lado dos desenhos as respectivas páginas d’O Mosquito — faltem as legendas com os títulos das novelas (e seus autores), pois nem todos os visitantes saberão identificá-las de memória.

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Graças ainda a José Ruy, alguns dos presentes tiveram também oportunidade de apreciar várias provas tipográficas e um volume acabado de sair do prelo de “Os Doze de Inglaterra”, uma das maiores obras-primas de E.T. Coelho, que foi, entretanto, reeditada pela Gradiva e já apresentada ao público e à comunicação social.

Neste post, divulgamos também na íntegra o texto alusivo à exposição “Tributo a Eduardo Teixeira Coelho”, que julgamos dever-se a Carlos Gonçalves, um dos fundadores do CPBD e activo membro da sua nova direcção, cujos méritos como articulista, ensaísta, divulgador e coleccionador de Banda Desenhada são bem conhecidos.

Os créditos da reportagem fotográfica são de José Boldt, a quem agradecemos também, mais uma vez, a partilha do seu excelente trabalho.

 TRIBUTO A EDUARDO TEIXEIRA COELHO

Estamos na fase de comemorar o 80º Aniversário da revista “O Mosquito”, uma das principais publicações portuguesas no campo da Banda Desenhada e que alcançaria assinalável sucesso junto de algumas gerações, não só as que fiel e semanalmente adquiriam os números da publicação que eram postos à venda, como aquelas que mais tarde, embora não tivessem lido originalmente a revista, sentiram a necessidade de a colecionar e preservar para novas gerações de leitores. Hoje, temos que admitir que a consulta do papel quase se tem vindo a reduzir de uma forma gradual, ainda que lenta. Os jovens cada vez mais são incentivados para se dedicarem aos meios audiovisuais, pondo de lado o prazer que é cheirar o papel, o tal cheiro que tanto nos entusiasma como apreciadores do papel e da sua leitura. Olharmos para uma revista e ver o seu estado de conservação ao fim de 80 anos, como é o caso dos primeiros números de “O Mosquito”, apreciar fisicamente através do nosso tato, a sua espessura, a textura e a rugosidade, dá-nos um certo bem-estar e até talvez, quem sabe, uma certa bonomia. Temos pois que despertar nos mais jovens o apreço da leitura no papel e não no computador, aparelho frio e distante, que em nada nos entusiasma, antes pelo contrário, nos obriga muitas vezes a sermos escravos da sua atividade, pois sem nós ele não participa em qualquer evento.

De todos os desenhadores da altura em que “O Mosquito” circulava e colaboravam na revista, houve um que se destacou de um modo imparável, vindo a tornar-se a nível internacional um dos maiores artistas portugueses na Banda Desenhada, no estudo das Caravelas e das Armas da época medieval. São bem patentes, a todos os níveis, os conhecimentos que este artista possuía daquilo que desenhava. No início, as capas e ilustrações que começou a produzir para as novelas da revista “O Mosquito”, cativavam os leitores pela impacto de cada cena de ação, com as quais os surpreendia de uma forma positiva. Muitas delas eram empolgantes e a anatomia humana não falhava nos pormenores. Também quando se ocupava dos animais, Eduardo Teixeira Coelho esmerava-se na concepção de cada um deles e retratava-os com qualidade e perfeição. O artista oferecia aos leitores de cada número da publicação, o que de melhor sabia da sua arte. E assim se tornaria num caso sério de sucesso ao longo da sua carreira, sendo distinguido com alguns prémios, pela qualidade dos seus trabalhos. Dos itinerários da sua carreira e da sua vida iremos falar a seguir, embora de uma forma sucinta. 

 OS ÚLTIMOS ANOS EM PORTUGAL

Eduardo Teixeira Coelho nasceu a 4 de Janeiro de 1919 nos Açores, em Angra do Heroísmo. Com 11 anos apenas veio para Lisboa. Começaria a trabalhar desde muito novo também em publicidade. Mas em 1936 seria a vez de desenhar tiras no jornal “Sempre Fixe”. No ano seguinte também. Os seus trabalhos serão esporádicos até que se dá a sua aparição em “O Mosquito” a partir de 1942, precisamente com a capa do número 360 da revista. Até aqui tinha colaborado em “O Senhor Doutor”, “Engenhocas”, “Coleção Aventuras” e “Filmagem”, sendo a segunda revista a que maior colaboração viria a ter antes de “O Mosquito”. A partir daqui o artista nunca mais parou na sua produção, melhorando cada vez mais.

Seria Rodrigues Alves quem o levaria a conhecer os suplementos dos jornais americanos, nos quais acabaria por admirar a arte de Harold Foster com o seu “Príncipe Valente”, Milton Caniff com a sua série “Terry and the Pirates” e também Burne Hogarth, criador de “Tarzan”, na altura. Depois é uma contínua procura na perfeição dos seus trabalhos. Enquanto se ocupava das histórias aos quadradinhos, em paralelo dedicava-se a outras tarefas, como nos cenários de filmes, em arraiais e feiras. Versátil em todos os aspetos, Eduardo Teixeira Coelho não se inibia de dar azo à sua veia artística. Depois da excelente produção que deixaria nas páginas da revista “O Mosquito”, com a separação dos dois sócios da publicação e o fim desta, ETC ficaria sem trabalho em 1953. Viu-se, então, a produzir pequenas histórias de banda desenhada infantis, que seriam publicadas pelo Fomento de Publicações na coleção “Capuchinho Vermelho”.

 ALGUMAS DAS OBRAS DE EDUARDO TEIXEIRA COELHO NO ESTRANGEIRO

Com poucas perspetivas para o seu futuro como desenhador, resolve partir para Espanha, pois já eram ali conhecidas obras suas nas revistas “Chicos”, em 1944 e 1947, e na “El Gran Chicos”, em 1945/1948 (ainda se encontrava em Portugal). Mas insatisfeito, acaba por se fixar em França a seguir, e começa a colaborar para a revista “Vaillant”. Mais tarde, já está a trabalhar em Inglaterra, onde durante dois anos colabora para as revistas “Comet” (1955/1956), “Playhour” (1956) e “Thriller Picture Library” (1957), mas não se adaptou com os métodos de trabalho ingleses, pelo que volta de novo para França.

Tributo a ETC - Ilustração 1 copy

Neste país encontramo-lo a colaborar novamente na revista “Vaillant”. Em parceria com Jean Ollivier, um prolífero argumentista nas histórias aos quadradinhos francesas, e com o pseudónimo de Martin Sièvre, nascem assim as personagens “Ragnar”, de 1955/69, “Till Ulenspiegel” no ano seguinte, que será publicada em Portugal na revista “Falcão” da primeira série, “Davy Crockett” em 1957 e “Wango, le Roi des Iles” no mesmo ano. Em 1958 vai viver para Roma e mais tarde fixa-se definitivamente em Florença. De 1960/1962 Teixeira Coelho irá ocupar-se de quatro aventuras de “Ives le Loup”, devido a doença de René Bastard. Esta série seria igualmente publicada na revista portuguesa “O Pardal”, embora de modo muito deficiente. Nos anos seguintes, e em paralelo com as aventuras de “Ragnar”, acabará por se ocupar também das histórias de “Robin des Bois”, personagem que já tinha sido desenhada por si em Inglaterra, na revista “Robin Hood Annual” (1957). Nascem assim cerca de 60 episódios pelos seus traços até 1975. Em 1982 desenha mais um, como recordação. A revista, a partir de 1969, passaria a chamar-se “Pif Gadget”, com um novo formato mais pequeno, dificultando as criações de ETC, habituado até aí a desenhar plenas pranchas de excecional qualidade artística. “Robin des Bois” é a solução. Em 1975, aparece “Le Furet” e, nos dois anos seguintes, a personagem “Erik Le Rouge”.

Entretanto, a revista alemã “YPS” resolve lançar as aventuras de “Ragnar”. “Gerfried” será a sua personagem a seguir, com mais de 40 episódios desenhados por este autor entre 1977 e 1981. Depois de dois anos ausente das páginas de “Pif Gadget”, E.T. Coelho volta com uma nova personagem, sempre com textos de Jean Ollivier, “Ayak, Le Loup Blanc”, que terá um novo percurso de aventuras entre 1979 a 1984. Treze dos episódios desta série seriam também publicados na revista portuguesa “Mundo de Aventuras”. Estava terminada a colaboração de ETC para as revistas “Vaillant/Pif Gadget”. No entanto, a sua colaboração para França não acaba aqui, pois ainda criou, de 1957 a 1963, a personagem “Pipolin”, cujas histórias seriam publicadas numa revista com o mesmo título. É prolífera a sua produção, pois ainda, de 1962 a 1968, e à margem da “Vaillant”, seriam publicadas cerca de 900 páginas em revistas de pequenos formatos, tais como “Brik”, “Pirates”, “Cartouche”… Esta última personagem é igualmente conhecida dos leitores portugueses. Vamos encontrar ainda trabalhos do nosso desenhador na ”Histoire de France en BD” e em “La Découverte du Monde en Bandes Dessinées” (1978/1980). De 1979 a 1986, nos livros de “Histoire Junior”, ocupa-se das ilustrações de uma dezena de títulos.

Tributo a ETC - Ilustração 3

Embora sempre fosse um artista discreto e pouco dado a visitar Festivais ou Salões de Banda Desenhada, acabaria por participar em alguns, a começar pelo “18º Festival Internacional de BD de Lucca”, em 1973, onde receberá o “Yellow Kid” do melhor desenhador estrangeiro. Em 1986, receberia do Clube Português de Banda Desenhada o prémio “O Mosquito Especial”, e em 1997, no “8 º. Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora”, foi a vez de ser distinguido pelo conjunto da sua obra.

FLORENÇA, A SUA CIDADE ELEITA

A partir de 1958, instala-se definitivamente na cidade de Florença, local onde o património histórico se enquadra nas suas obras e seus estudos futuros, mas, como sabemos, continua a trabalhar para França. Mas não deixaria de, em paralelo de novo, de colaborar em revistas italianas com obras suas, como é o caso da publicação “Sgt. Kirk” (1978) e “Comic Art” (1984). Depois dessa sua atividade ligada à banda desenhada e que encerrou em finais dos anos 80, a sua produção quase desaparece, pois a sua atenção passou a ser a de executar trabalhos ligados à arquitetura medieval, barcos, armas e armaduras, paixão que manteria até ao fim da sua vida… Serão então publicados vários estudos da sua autoria: “L’Arte dell’Armatura in Italia” (1967), “Armi Bianchi Italiani” (1975) e “Marino, El Santo del Titano” (1996). Nos últimos meses da sua vida ainda irá produzir uma obra repleta de excecional beleza e intitulada “La Loi des Terres Sauvages”, publicada na revista “Pif Gadget” poucos dias antes do seu autor falecer, a 31 de Maio de 2005. Esta é mais uma obra-prima pela excelente forma como os animais são retratados, apanágio e símbolo deste grande artista, que sempre nos ofereceu uma invulgar forma de desenhar a fauna animal.  

Tributo a ETC - Ilustração 4

 

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