“OS DOZE DE INGLATERRA” – por E.T. Coelho (4)

A Ala dos Namorados (Campos Júnior)Quando José Ruy me informou, há três meses, de uma sensacional novidade, levantando o véu sobre a reedição, pela Gradiva, de uma das obras-primas de E.T. Coelho publicadas n’O Mosquito — nem mais nem menos do que “Os Doze de Inglaterra”, história dada à estampa durante um longo período, isto é, entre os nºs 1201 (27-12-1950) e 1306 (29-12-1951) —, reparei que ele não atribuía a origem dessa magnífica adaptação a Raul Correia (cujo nome, aliás, surge em lugar de destaque), mas a uma obra de António Campos Júnior, drama- turgo, jornalista, oficial do Exército e reputado autor de romances históricos, em especial “A Ala dos Namorados” — que foi vertida também para quadradinhos, no Cavaleiro Andante, em meados dos anos 50, por uma dupla de inegável talento: Artur Varatojo (texto) e José Manuel Soares.

12 Inglaterra Mosq 1285 705Em conversa amena, chamei a atenção de José Ruy para o facto de o enredo desse romance não ter nenhuma ligação directa com o lendário episódio de “Os Doze de Inglaterra”, embora António Campos Júnior dissertasse brevemente, num dos capítulos finais da obra, sobre a proeza de Álvaro Gonçalves Coutinho (que ficou conhecido na História pelo epíteto de “Magriço”) e dos seus onze briosos companheiros de armas. No entanto, José Ruy insistiu na sua tese, visto ter sido amigo e colega de trabalho de E.T. Coelho n’O Mosquito, acompanhando-o assiduamente na época em que ele estava embrenhado na realização desta história. José Ruy, como muita gente sabe, tem uma memória prodigiosa, que nunca comete deslizes… e os seus argumentos são também, em regra, de uma validez a toda a prova. Por isso, enviou-nos um texto a que damos seguidamente a devida publicidade, satisfazendo o seu pedido, a fim de aclarar as afirmações que fez no texto anterior, publicado neste blogue em 18 de Dezembro do ano passado e que podem rever aqui.

“Os Doze de Inglaterra”: obra de Campos Júnior ou de outro autor? – por José Ruy

«Decorria o ano de 1950 e eu mantinha ateliê em Lisboa em parceria com o Eduardo Teixeira Coelho, meu Mestre e dedicado amigo. Nessa altura, trabalhávamos em alguma publicidade e fazíamos as nossas Histórias em Quadrinhos, eu para «O Papagaio», depois inserido na revista «Flama», ele para «O Mosquito», já na sua fase final.

Estava ele a iniciar, então, os desenhos de «Os Doze de Inglaterra», uma narrativa com base num acontecimento histórico ocorrido no século XIV: o pedido de doze damas inglesas para um desagravo por ofensas sofridas de doze cavaleiros seus conterrâneos. E foi pedida a intervenção de outros tantos portugueses para defender as donas ultrajadas, já que em Inglaterra ninguém se atrevia a enfrentar tão aguerridos senhores.

Teixeira Coelho possuía como guião um opúsculo impresso, praticamente um folheto, e falava-me entusiasticamente do seu autor, António Campos Júnior. Na altura, não li a história mas ia acompanhando o trabalho do meu companheiro de estirador, que se prolongou durante um ano. Teixeira Coelho admirava Campos Júnior, não sei se por sentir haver algo em comum com ele.

A Ala dos Namorados - 2-jpgAmbos eram naturais dos Açores e haviam frequen- tado o Colégio Militar, embora o Coelho contra sua vontade. Mas com 70 anos de diferença.

Quando surgiu a oportunidade do meu velho amigo Guilherme Valente reeditar de maneira digna esta História em Quadrinhos pela Editora Gradiva, e de me ter dado a oportunidade de prestar um contributo na recuperação do material, um nome me surgiu à memória, que mantenho rigorosa de toda a forte vivência com o Coelho, para a obra: Campos Júnior.

Pesquisando na Net dados biográficos deste insigne romancista, lá encontrei «Os Doze de Inglaterra» como um dos seus romances. Coincidia.

Mas o meu outro grande amigo Jorge Magalhães, que muito admiro e respeito, ao ter conhecimento desta edição, chamou-me a atenção para o facto de não conhecer na biografia deste autor o título em questão. Fez uma aturada pesquisa e em «A Ala dos Namorados» apenas encontrou uma referência aos intervenientes do torneio, quando já avós, alguns anos mais tarde.

12 de I - Mosquito 1292 956Entrei, então, numa luta entre a minha memória e a realidade que se me apresentou. O Teixeira Coelho falou-me sempre, durante esse ano, de Campos Júnior como autor do romance, a que ele ia acrescentando outros episódios, com a sua fértil imaginação, e o Raul Correia escrevia as legendas em belíssima prosa, a partir dos desenhos completos e inspiradores.

Então, como aparece na Net (que em muitos casos sabemos não ser fiável) esse título atribuído a Campos Júnior? Costuma-se dizer que não há fumo sem fogo; neste caso vemos o fumo mas não conseguimos localizar a chama.

Essa publicação que eu vi e que serviu de base à obra realizada pelo Teixeira Coelho, possivelmente teria tido uma tiragem reduzida, e sem entrar na Biblioteca Nacional, o que não é caso raro, e os biógrafos de Campos Júnior, sem essa presença física, não a teriam incluído no conjunto das obras do escritor. Incógnita.

Assumo, assim, toda a responsabilidade no que respeita à «suposta» atribuição desta autoria, já que o Coelho o afirmava e eu tive esse opúsculo na mão há meio século, mais década e meia. Campos Júnior escreveu realmente, ou não, «Os Doze de Inglaterra», baseado no documento manuscrito em 1550 que narra este episódio histórico? Obrigado, Jorge Magalhães, por me ter alertado, mas continuo dividido».

Os 12 de Inglaterra (págs, do álbum) - 1

Nota à margem: A propósito deste tema, que suscitou a minha curiosidade e que certamente interessará também a alguns leitores que aguardam com natural expectativa a reedição de “Os Doze de Inglaterra”, numa versão totalmente nova da Gradiva, feita a partir de provas originais e não directamente das páginas d’O Mosquito — o que é, à partida, uma garantia de qualidade — quero destacar o valioso trabalho que António Martinó de Azevedo Coutinho, com a sua profunda erudição e o seu permanente desejo de desfazer dúvidas e equívocos, aliando a probidade e o conhecimento ao máximo rigor, realizou no blogue que eficientemente dirige: o Largo dos Correios.

12654220_902723516493237_4320641162970025297_nE esse aturado trabalho de análise e pesquisa sobre “Os Doze de Inglaterra”, a obra-prima de E.T. Coelho publicada na fase final d’O Mosquito, centrou-se também no mistério das suas origens literárias, enumerando alguns recônditos e remotos vestígios, que pacientemente “desen- terrou” das arcas do passado — como poderão verificar no post que aqui indico, permitindo-me recomendar também a leitura dos seis restantes artigos: https://largodoscorreios.wordpress.com/2015/11/24/os-doze-de-inglaterra-ii/

Mau grado a projecção que Luís de Camões deu no Canto VI d’Os Lusíadas ao épico episódio do torneio de Inglaterra em que se distinguiram os doze bravos cavaleiros portugueses liderados pelo “Magriço”, essas origens perdem-se em hipóteses e especulações, sem que se possa ter a certeza da autenticidade da gesta heróica, envolta pelo tempo e pela lenda numa réstia de brumosa fantasia.

Termino manifestando também o meu apreço e admiração a José Ruy pelo empenho com que se dedicou ao restauro deste magnífico trabalho de E.T. Coelho (através de provas de impressão d’O Mosquito), tornando-se um elo essencial no projecto elaborado pela Gradiva — que também está obviamente de parabéns, por ter devolvido ao património histórico da nossa BD, em condições de perfeita beleza, uma das suas maiores obras-primas.

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