HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 5

Avô Raul capa

V

Lembro-me das férias de verão passadas com a família quase toda, em casas alugadas e suficientemente grandes para acomodar os meus avós, os meus pais, alguns dos meus tios e os meus primos! A terra preferida era a Parede, por vezes Santo Amaro de Oeiras ou São Pedro do Estoril. Uma dessas casas, em Sintra, mais concretamente em Galamares, tinha uma piscina onde eu e os meus primos passávamos a vida e uma das memórias que guardo é a do “Avô Raul”, de fato de banho, a entrar na água e, para nosso grande contentamento, tentar dar umas braçadas sem chocar com nenhum de nós! Claro está, rapidamente desistiu e voltou resignado para a companhia dos adultos…

Dessa casa, guardo outra recordação – a do meu tio Raul, que era o mais velho dos “rapazes”, nos fazer uma visita inesquecível aos comandos da sua nova máquina… Lembro-me, como se fosse hoje, de estar de pé na berma da piscina e ver um Porsche descer a rampa e imobilizar-se em frente à garagem… Alguém disse: “É o tio Raul!”… Num segundo, a piscina ficou vazia!

Outro episódio engraçado: o meu tio Mário, seu filho e colega nos Amigos do Livro e nas traduções, contou-me que, a dada altura, estavam os dois a traduzir um livro cientifico sobre os malefícios do tabaco e, durante a tradução, faziam uns intervalos para comparar notas e comentar textos e imagens mais explicitas sobre os vários tipos de cancros e de doentes, enquanto fumavam alegremente mais um cigarro e despejavam os cinzeiros!…

A minha tia Adelaide, a mais velha dos oito filhos e uma espécie de segunda mãe e segunda avó para mim, lembra-se do pai lhe telefonar no dia seguinte ao seu casamento, só para lhe perguntar se estava feliz! A minha tia escreveu-lhe uma carta a dizer que ele era “o melhor pai do mundo” e o meu avô respondeu-lhe que se sentia muito contente por ser o melhor pai do mundo! Esta correspondência tem a particularidade de ter sido escrita na língua de Shakespeare! Não perguntei o motivo para tal, mas deduzo que a minha tia, que estava na altura a tirar o curso de Correspondente de Línguas, quisesse praticar o Inglês!

No dia 20 de Maio de 1970, escreveu um poema em francês, dedicado à sua filha Maria Fernanda, a “Bijéu”, e ao “Zé”, o seu – acabado de ser – marido!

av+¦045

Outra imagem que a sua filha Adelaide guarda vividamente na memória é a de um certo primeiro dia de férias na Parede, em que, acabados de chegar a casa e enquanto a minha avó e a empregada arrumavam as malas, o Avô Raul pegou na filha e foram para a praia num belo fim de tarde tomar banho só os dois. Quando chegaram a casa, o jantar já estava a arrefecer…

A minha mãe lembra-se de ir ter com o pai ao Avenida Palace para irem os dois ás compras, isto porque o meu avô, para alem de partilhar com a filha uma certa vaidade na apresentação pessoal, deixava-a escolher o que ela queria, ao contrário da minha avó, que a queria vestir como uma boneca de outros tempos! Tal como comigo, o meu avô sabia exactamente o que a minha mãe gostava e, por isso, quando lhe ofereciam roupa, a minha mãe rezava para que fosse o meu avô a escolher!

Muitas vezes, o meu avô escrevia cartas e dedicava poemas a amigos nos seus aniversários. Respondia sempre às cartas de admiradores ou a qualquer pedido que lhe fosse feito.

Não sei se muitos saberão, mas o meu avô deixou vasta escrita não publicada por sua vontade expressa. Desde ensaios sobre a realidade politica e social da sua e de outras épocas a textos literários, cartas e poemas mais pessoais. “Enquanto for vivo, não quero que isto seja conhecido, quando eu morrer façam o que quiserem…”, disse ao meu tio Mário, ao entregar-lhe uma pasta cheia de folhas. E assim se mantém até hoje.

Fotos 8

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s