HÁ 80 ANOS NASCIA “O MOSQUITO”…

mosquito-um jornal juvenil

Passam hoje oito décadas sobre a data festiva em que um novo jornal de histórias aos quadradinhos surgiu pela primeira vez nas bancas portuguesas, recebido com entusiasmo por todos os garotos, ricos ou de modestas posses, pois era o único do seu género que custava apenas 50 centavos (cinco tostões).

Um conjunto de factores, sabiamente doseados por dois experientes artesãos do mesmo ofício, com nomes familiares e afectuosos — Raul Correia (o Avozinho) e António Cardoso Lopes Jr. (o Tiotónio) —, contribuiu de forma decisiva para a triunfal arrancada do impante semanário, cuja tiragem não tardou a atingir cifras astronómicas, não parando de crescer nos anos seguintes, sobretudo durante a sua “época de ouro”, assim chamada por ter passado a publicar-se duas vezes por semana, com a colaboração de novos e talentosos artistas, como E.T. Coelho, Vítor Péon, Emilio Freixas, Jesús e Alejandro Blasco, Jayme Cortez, Puigmiquel, Carlos Roca, José Garcês e muitos outros.

o-mosquito-360-11O Mosquito tinha, nessa época dourada (1942-1947), uma tiragem semanal de 60.000 exemplares e chegava a todos os recantos do país, graças aos diligentes correios que se afadigavam para dis- tribui-lo a tempo e horas e aos inúmeros pontos de venda onde era exibido entre os títulos de maior expansão da imprensa portuguesa.

Esse êxito incontestável, que ainda hoje causa admiração e espanto a todos quantos se debruçam sobre as pitorescas crónicas das histórias aos quadradinhos nacionais, conheceu um funesto período de crise quando os dois fundadores e principais animadores do jornal se desentenderam, cortando abruptamente (por razões que ainda hoje mal se conhecem) os laços de amizade e de saudável cooperação que tinham mantido durante mais de uma década, tanto n’O Mosquito como no Tic-Tac, outra revista onde o infatigável Tiotónio demonstrou o seu saber como especialista das lides gráficas e humorísticas, para gáudio do público infanto-juvenil.

mosquito-1412-s-cristovc3a3o-9271O Mosquito durou pouco mais, com Raul Correia solitário, mas firme ao leme, num mar encapelado onde surgiam escolhos difíceis de contornar, por falta de apoios comerciais e de meios publicitários, embora o seu espírito de resistência continuasse à tona, contagiando um pequeno mas aguerrido grupo de leitores fiéis, que o apoiaram — tal como E.T. Coelho — até ao fim, contra os poderosos concorrentes e as fatais procelas do mercado editorial, altamente competitivo, dos anos 50.

Esse mesmo espírito combativo, nimbado por um sentimento de devoção e de profunda nostalgia cuja origem é quase impossível definir, fez com que a memória e a aura d’O Mosquito atravessassem, triunfantes, os umbrais do tempo, ao longo de vários decénios, acalentadas por uma espécie de transcendente ritual que de ano para ano ganha ainda maior significado e amplitude, celebrando-se sem pompa e circunstância, mas com a viva emoção de um passado radioso que se reflecte nítida e perenemente no futuro.

Mosquito canta copyPor isso, no próximo dia 16, dois dias depois da data oficial do nascimento d’O Mosquito, os seus velhos e fiéis admiradores — alguns já com a mesma idade — e muitos outros membros de uma confraria onde não existem barreiras nem conflitos de gerações, pois todos comungam, atavicamente, os mesmos lemas e o mesmo ideal, reunir- -se-ão, uma vez mais, num restaurante da baixa lisboeta, para festejar os 80 anos de um pequeno e modesto jornal infanto-juvenil em cujas páginas palpitava uma estranha e inexplicável sedução, um forte apelo à aventura, à audácia e à fantasia, mesclado com o raro dom de educar divertindo, por meio de palavras e imagens tão fortes e fascinantes que nunca mais se apagaram do espírito dos seus alegres e devotos discípulos.

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