NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 5

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Com data do dia de Natal de 1948, apareceu nas bancas o garrido número especial de uma nova revista de pequeno formato — idêntico ao que O Mosquito adoptara anos antes —, e que era dirigida por um experiente profissional das artes gráficas e da imprensa infanto- -juvenil: António Cardoso Lopes (Tiotónio).

Na ficha técnica, o seu nome aparecia igualmente como editor, sob o patrocínio das Edições O Mosquito, localizadas na mesma sede, à Travessa de S. Pedro – 9, em Lisboa, de que ele continuava a ser proprietário. Este facto insólito e incompreensível para muitos leitores desse tempo devia-se à brusca cisão entre os dois directores d’O Mosquito, a qual impelira Raul Correia, com armas e bagagens (isto é, com a revista “debaixo do braço”), a dizer adeus ao seu sócio e a assumir com outros apoios a continuidade da mais antiga publicação infanto-juvenil portuguesa.

Tendo ficado sem o título que mais êxito e prestígio dera à sua editora, mas dono de uma oficina com equipamento do melhor que havia na época, Cardoso Lopes não perdeu tempo a congeminar novos projectos e assim nasceu O Gafanhoto, em 11/12/1948, criado à imagem d’O Mosquito, na fase que durara entre 1942 e 1945, embora com outro conteúdo, em que ainda se sentia a mão de Tiotónio no plano gráfico e artístico, mas sem um elemento primordial e que fazia toda a diferença: o talento literário de Raul Correia.

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Curiosamente, neste número de Natal (com uma capa desenhada por Cardoso Lopes, em que o bonacheirão velhote de fartas barbas brancas exibia algumas preciosidades saídas da “fábrica de sonhos” das Edições O Mosquito), um dos principais temas alusivos à quadra era uma poesia de Raul Correia, com o título “Noite de Natal”, publicada em tempos idos, com o cognome de Avozinho, no jornal que ainda lhe pertencia. A única novidade natalícia foi o Presépio apresentado em separata, modesto e simples, à semelhança do próprio “insecto” recém-nascido, ainda a exercitar timidamente as suas patas, na esperança de poder saltar maiores distâncias.

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Embora não tivesse tido vida longa (por razões que nunca foram completamente do domínio público), O Gafanhoto conseguiu granjear o entusiasmo de um vasto grupo de simpatizantes, graças não só ao seu preço e à sua periodicidade concorrenciais com os d’O Mosquito e do Diabrete, mas também a algumas excelentes histórias que apresentou nas suas páginas, nomeadamente a que tinha por título “As Aventuras de Gafanhoto” — adaptação livre (para “encher o olho” ao leitor) de uma série americana bem conhecida, com um simpático chinês que apreciava tiradas filosóficas, chamado Ming Foo, e que era desenhada por Nicholas Afonsky.

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Na última página deste número, sob o título Necas, Tonecas & C.ª, surgiam outros célebres personagens oriundos das mesmas fontes, que também já tinham feito as delícias dos leitores d’O Mosquito. Cardoso Lopes, cujos trunfos como editor de uma nova revista eram ainda poucos, soube apostar numa das séries cómicas mundialmente mais famosas, desenhada, nesse período, por Harold Knerr, mas cujo nome original — Katzenjammer Kids — continuava a ser desconhecido da maioria dos jovens portugueses.

As tropelias dos dois garotos endiabrados, cujo maior divertimento era pregar partidas ao façanhudo Capitão Barbaças, sem receio das reprimendas nem dos castigos dos adultos, provocaram muitas gargalhadas e foram um dos principais factores de êxito d’O Gafanhoto, nessa primeira etapa da sua existência.

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