HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 2

Avô Raul capa

II

Curiosamente e de certa forma paradoxalmente, o meu avô, apesar da sua gigantesca sensibilidade e mente artística, era um homem rígido e algo conservador no aspecto familiar. Quem o conheceu ficava impressionado com a sua candura, educação, verticalidade, inteligência, cultura e modéstia, mas para os filhos, e apesar do enorme carinho que lhes dava, a rédea era curta em termos disciplinares! Esta característica aparentemente contraditória do meu avô, revelou-se uma mais-valia fundamental na estrutura mental dos seus filhos. Porquê? Porque o talento e a sensibilidade podem ser herdados pelos genes, mas os “pés bem assentes na terra” não. Por falar em rédea curta, dou-vos o exemplo do meu indomável tio Armando, que dos oito filhos era o único que gostava mais de festa do que de estudo e, por isso, foi “enviado” para África com 18 anos, para trabalhar com o irmão do meu avô que lá vivia.

Vale a pena contar: o meu avô, esgotada a paciência e o stock de “galhetas” (o termo que usava para designar uma palmada) no traseiro do meu tio, chegou à conclusão de que o seu filho corria sérios riscos de se tornar um caso perdido… A minha avó, já em desespero de causa, perguntou-lhe se ele queria ir para África trabalhar com o tio, que, por sinal, também se chamava Armando e que, no seu tempo, tinha rumado a África por motivos semelhantes!… A minha mãe, que tinha 13 anos na altura, recorda-se nitidamente de ouvir a minha avó perguntar ao irmão: “Tens a certeza que queres ir?”, e do meu tio responder categoricamente: “Tenho a certeza!” Até à sua morte, o meu tio Armando viveu metade do ano em África e a outra metade em Portugal, pois o seu trabalho era sazonal e os rendimentos permitiam umas férias de seis meses! Lembro-me da alegria dos meus avós e a dele, cada vez que chegava a “casa”.

Por ser neto, fui muito mais poupado no aspecto disciplinar. E toda a gente sabe que os pais educam e os avós estragam! No entanto, havia uma situação em que não me livrava de um ou dois berros seus e da ameaça de uma “galheta”! Quando chateava a minha avó… coisa que, aliás, acontecia frequentemente! A minha sorte era que muitas dessas vezes o meu avô não estava em casa… Para terem uma ideia de como isso o enfurecia, dou-vos um exemplo: o meu avô trabalhava no escritório com a porta habitualmente fechada e eu estava com a minha avó na sala, que ficava na outra ponta da casa. Numa situação normal, a minha avó ou eu podíamos chamá-lo quase a gritar que ele não ouvia, mas se a minha avó pronunciasse um “Não!” ou um “Está quieto!”, em voz normal, três segundos depois já ouvia as suas passadas na minha direcção…

Fotos 2

Recordo-me, como se fosse ontem, das suas chegadas a casa no fim do dia, vindo dos Amigos do Livro, especialmente no Inverno, quando era já de noite. Da sua figura distinta, com o eterno bigode fino à Clark Gable, agasalhado no seu sobretudo ou gabardina, com o cachecol cinzento, bordeaux ou “escocês”, à volta do pescoço, o chapéu-de-chuva numa mão e a pasta na outra.

Fiquei com o seu sobretudo cinzento, que usei muitas vezes e com o cachecol da mesma cor que ainda hoje uso e que está como novo. Muitas vezes, ao chegar a casa, trazia o embrulho que eu esperava sempre ansiosamente e que me fazia correr para a porta mal ouvia o elevador parar no 5º andar… Podia ser um carrinho da Matchbox, da Majorette, da Burago, da Polistil, da Corgi ou da Sólido, sabendo ele que as duas últimas marcas eram as minhas preferidas! Aliás, ele sabia que qualquer máquina que tivesse rodas, lagartas, hélices, asas e motor era bem-vinda…

Dou-vos um exemplo da sua atenção para comigo e que traduz bem a sua atenção para tudo: o nosso prédio ficava “colado” a uma antiga fábrica de metalurgia que já não existe hoje e eu passava horas na varanda da frente e na varanda de trás, a seguir a velha empilhadora “Cat” amarela que levantava incansavelmente vigas de aço e outras coisas do género e as levava de uma ponta à outra da fábrica… Um fim de dia, ao rasgar mais um embrulho na mesa de jantar, vi uma maravilhosa empilhadora cor de laranja, toda em metal e totalmente funcional!

O meu avô recebia a National Geographic e a Reader’s Digest pelo correio, sendo que eu era normalmente a primeira pessoa a ver os “bonecos”, para mais logo o “chatear” sobre tudo o que não sabia.

Há muitas outras imagens de infância que me vêm à memória, como a tentativa do meu avô usar barba, tentativa essa que durou talvez três semanas de comichão e que terminou na casa de banho, de Gillette em punho, entre pragas e alguns cortes pelo meio! Lembro-me nitidamente de o ver em camisola interior, em frente ao espelho a limpar a espuma de barbear e o sangue com uma toalha branca… Lembro-me de, um dia, ir com ele aos Amigos do Livro e do Carlos Alberto Santos me fazer um desenho da cabeça de um soldado com capacete em meia dúzia de traços e de eu pensar que os amigos do meu avô também sabiam desenhar muito bem!

Lembro-me da sua expressão favorita para definir uma pessoa com quem não “simpatizava”: “Um pedaço de trampa!” Maravilhosa definição… “Este tipo não passa de um idiota” ou “Este tipo é uma anedota”, eram outras favoritas. O meu avô tratava habitualmente as senhoras por “Minha querida senhora” e, apesar da seriedade com que empregava o termo, não se escapava a um ou outro olhar ciumento da minha avó!

Fotos 6

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s