HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 1

Introdução

No mês de Agosto, em que prazenteiramente celebrámos o 1º aniversário d’O Voo d’O Mosquito, foram apresentadas algumas novidades e anunciada aquela que é, sem dúvida, a melhor de todas, dedicada também a Raul Correia. Quisemos guardá-la para o nosso centésimo post, outro marco especial na existência ainda breve deste blogue.

img002Trata-se de uma magnífica e sentida homenagem ao talentoso escritor e poeta cujo nome ficou indisso- luvelmente ligado ao mais carismático título da BD portuguesa, que fundou e dirigiu, na parte literária, até ao derradeiro número (1412) da sua 1ª série, publicada entre 14 de Janeiro de 1936 e 24 de Fevereiro de 1953.

Muito se sabe já sobre a carreira de Raul Correia, na área do jornalismo e da literatura juvenil, onde exerceu intensa actividade mesmo depois do fim d’O Mosquito, a par de outros ofícios mais ou menos correlativos, como o de tradutor; mas pouco, muito pouco mesmo, se conhece das suas facetas mais privadas, como homem de sociedade e de família, marido e pai extremoso de oito filhos, quatro rapazes e quatro raparigas, a cuja educação e bem-estar dedicou sempre o melhor de si próprio.

Graças a Alexandre Correia Gonçalves, neto do saudoso poeta “de alma triste e coração feliz” que escrevia, com o pseudónimo de Avozinho, para um vasto e devotado público de outros netos (adoptivos) — muitos dos quais ainda hoje o recordam —, iremos ficar a conhecer melhor a personalidade de Raul Correia, nos seus aspectos mais íntimos e genuínos.

av+¦058Alexandre Correia herdou, aliás, a veia literária do seu avô, como prova este elo- quente testemunho, dedi- cando-se também, com talento, a actividades artís- ticas como o desenho.

Vivendo na infância a dois passos dos avós, com quem partilhava muitas horas do dia, teve o privilégio de acompanhar na intimidade o trabalho daquele que ainda hoje tanto admira e de assistir a muitas peripécias familiares que se gravaram indelevelmente na memória do seu passado afectivo.

É com legítimo orgulho, e com profundo reconhecimento a Alexandre Correia Gonçalves, que O Voo d’O Mosquito começa hoje a divulgar o precioso tributo de um neto ao seu avô, recheado de imagens e documentos pessoais (revelados pela primeira vez), de factos curiosos, de pequenas anedotas, de momentos de humor e de ternura — e também de episódios dramáticos, já no crepúsculo de uma vida passada quase sempre ao serviço da cultura e de uma nobre causa, dirigida aos jovens e à sua formação pedagógica, cultural e intelectual por meios salutares e inteiramente recreativos.

Avô Raul capa

I

“Avô, desenha-me um “Teco-teco”!

Não sei quantas vezes lhe fiz este pedido. Mais de cem, seguramente. E mais de cem vezes o meu avô me desenhou um “Teco-teco”…

Sentava-me a seu lado durante três ou quatro minutos, enquanto as duas asas e a fuselagem tomavam forma. Por último, desenhava o hélice a girar tão depressa que não se viam as pás… Uáu! Eu ficava de olhos colados à folha de papel, a pensar como era possível desenhar daquela maneira. Feito assim, a 3/4, parecia mesmo que estava a voar dentro do papel! O “Teco-teco” era um biplano da 1ª Guerra Mundial. Já tinha mais um!

“Vá, vai brincar, o avô tem de trabalhar”. Virava-se para a sua Olivetti, a máquina de escrever eléctrica que eu lhe pedia sempre para ligar e desligar. Os seus dedos recomeçavam a matraquear as teclas e na folha de papel nasciam filas e filas de letras que não me diziam nada. Eu tinha 4 ou 5 anos e não sabia qual era o trabalho do meu avô. Três ou quatro anos depois, fiquei a saber que todas aquelas letras eram o seu trabalho, aquilo que ele sabia fazer mesmo bem. Que desilusão! Aquilo era mais bem feito do que o “Teco- -teco”? Não podia ser!

Foram precisos mais três ou quatro anos para eu compreender que afinal era verdade, que o avô Raul escrevia ainda melhor do que desenhava “Teco-tecos”. Muito melhor.

Fotos

Quando o meu avô morreu, eu tinha 17 anos. Na Igreja de S. João de Deus, onde o seu corpo esteve em câmara ardente, sentei-me numa cadeira, arranquei uma folha de um pequeno bloco e desenhei o seu perfil visível, o que a berma do seu caixão deixava ver. No canto inferior da folha escrevi a data, mas, nesse dia e nessa data, não tinha ainda a noção exacta de quanto dele havia em mim. Tal como não tinha a noção exacta da importância e do impacto que o seu trabalho tivera para tanta gente. Hoje, com 46 anos, tenho a certeza absoluta de que muito do que sou e muito do que faço a ele o devo. E muito lhe devo.

Durante os dezassete anos da minha vida em que ele esteve presente, poucos foram os dias em que não o via. Durante os primeiros anos da minha infância passados em Benfica, na Praceta República Peruana, os meus pais viveram no mesmo prédio onde viviam os meus avós. Nós no 2º andar e eles no 5º. Durante esses anos, poucos foram os dias em que não dormi no 5º. Dá para ter uma ideia do quanto eu era “chegado” aos mais velhotes dos velhotes! Por isso, ao falar do meu avô, falo sempre da minha avó, até porque não poderia ser de outra forma. Os dois eram um só. De outras formas, o que hoje sou, também a ela o devo. Quantas noites adormeci com as suas histórias de encantar, que eu interrompia sempre para mudar o final…

Fotos 5

Estas palavras sobre o meu avô, há muito devidas e em jeito de pequeno tributo, servem um duplo propósito: deixar escritas para a posteridade as palavras da minha admiração por ele e simultaneamente dar a conhecer algumas facetas mais pessoais da pessoa que muitos conhecem apenas por “Avozinho” e que eu tive a sorte e o privilégio de conhecer por meu “Avozinho”.

A minha mãe e sua filha, ao falar sobre o pai no Festival de BD da Amadora, definiu o seu trabalho desta maravilhosa forma: “O meu pai viajou pelo mundo sentado à frente de uma máquina de escrever”. Não conheço melhor definição.

Decerto, muitos de vós não sabiam que ele também desenhava, e bem!

Para terem uma ideia do seu alcance intelectual, basta dizer-vos que, depois do jantar, o meu avô gostava de juntar os oito filhos na sala e recitar-lhes partes inteiras dos grandes clássicos da literatura e da poesia mundial em português, inglês e francês, sem ler!

Poucos filhos se podem gabar de ter um pai que lhes declama o Hamlet ou o Cyrano de Bergerac de “cabeça”, ao serão! Certas noites mais “leves”, eram preenchidas por histórias diversas e anedotas, que o meu avô tinha especial jeito para contar.  

Dos autores portugueses, o meu avô tinha especial admiração por Eça de Queiroz, mas nunca leu nem deu a ler Os Maias aos filhos, simplesmente por causa das cenas de incesto entre os dois irmãos! A minha mãe contou-me que o leu às escondidas!  

Nesse tempo, a sua máquina de escrever era uma Hermes Baby e quando o meu avô não estava no escritório d’O Mosquito ou no escritório do Hotel Avenida Palace, os seus filhos, tal como eu, foram crescendo ao som das teclas e das folhas de papel.

Fotos 7

 

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