LEI DA SELVA OU LEI DA SELVAJARIA HUMANA?

Cecil the lion - 2

A notícia correu mundo, através da imprensa, da rádio, da televisão e das redes sociais, provocando a indignação dos defensores da natureza e dos direitos dos animais (mas não só). Também a Avaaz reagiu abertamente, alertando mais uma vez a opinião pública e a consciência dos líderes políticos mundiais para os perigos que ameaçam várias espécies à beira da extinção, por causa da caça furtiva e do comércio ilegal que grassam nalguns países africanos e asiáticos, cecil_640onde a corrupção e a falta de leis (e de meios) para protecção da natureza permitem que os caçadores e os traficantes continuem a exercer impunemente a sua nefanda actividade.

Mas o caso agora tão falado é ainda mais chocante: um dentista americano, pelos vistos bem sucedido na sua actividade profissional, pagou milhares de dólares para ter o “prazer” de matar um leão, que era um ex-libris e a principal atracção de um parque natural do Zimbabwe, visitado por turistas, fotógrafos e naturalistas de todo o mundo.

exposic3a7c3a3o-de-trofc3a9us-de-cac3a7a1Chamava-se Cecil esse leão, tinha coleira de identidade e era alvo das atenções do público e das equipas de vigilância da reserva de Hwange, que o consideravam dócil, quase inofensivo. Mas isso não o impediu de ser caçado e abatido, sem piedade, como rezam as notícias, pelo tal dentista milionário (já habituado a essas proezas), que merecia estar, agora, atrás das grades no Zimbabwe, à espera de julgamento pela sua acção “frívola e cruel” — como a baptizou Miguel Esteves Cardoso no Público —, mas já regressou aos Estados Unidos e à sua confortável vidinha de “respeitável” cidadão.

Este triste e ignóbil episódio, que nos faz ter vergonha dos nossos semelhantes (e são muitos) que não respeitam o direito à vida das outras espécies que povoam este planeta, fez-nos recordar uma excelente história aos quadradinhos publicada há muitas décadas no saudoso jornal O Mosquito, com ilustrações de um dos maiores artistas que já se distinguiram nessa modalidade: Eduardo Teixeira Coelho.

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Curiosamente, a história em causa, intitulada “A Lei da Selva”, tinha como protagonistas os animais selvagens da fauna africana, em especial os mais majestosos, feros e temidos de todos os felinos, que pelo seu porte imponente e pelos seus hábitos quase “aristocráticos” merecem estar no topo da realeza, à escala zoológica.

lei-da-selva-2-385Nesta grande aventura, que E.T. Coelho ilustrou de forma magnífica, demonstrando ser um mestre da arte figurativa e um profundo conhecedor da anatomia animal, são os leões que têm a primazia, nomeadamente uma jovem cria que escapou de morte certa, depois dos seus pais terem sido abatidos a tiro por um caçador. Sobrevivente, quase por milagre, de uma incrível odisseia — em que tem de arrostar inúmeros combates com os seus inimigos (que não são apenas as outras feras, mas também os lei-da-selva-3-386supersticiosos caçadores indígenas que não lhe dão tréguas) e contra as forças da natureza, ainda mais implacáveis e destruidoras, na sua fúria cega e sem limites —, esse leão acaba por ser um símbolo da coragem, da resistência e da vontade de viver, triunfando de todos os perigos e armadilhas, graças a uma lei ainda mais forte do que a lei da selva: a lei do instinto, da sobrevivência e do amor… ao acasalar pela primeira vez e ser pai de uma vigorosa ninhada que garantirá a preservação da sua indomável raça. Uma aventura cheia de peripécias dramáticas, de lutas sem fim, mas com um final feliz!

jornal-do-cuto-9-387Reeditada em 1971/72 no Jornal do Cuto, outra memorável publicação juvenil, dirigida por Roussado Pinto, esta história (em que merece também destaque o vigor literário das legendas de Raul Correia) será, em breve, apresentada no nosso blogue, em homenagem aos seus dois carismáticos autores, a um tema que não perdeu actualidade e a uma das fases mais assinaláveis da incontornável carreira de E.T. Coelho n’O Mosquito.

Aguardem, pois, pelos primeiros episódios de “A Lei da Selva”, uma obra-prima que desenhadores como Emilio Freixas, Jesús Blasco, Jayme Cortez e José Ruy consi- deraram um caso excepcional de talento e inspiração, pela mestria gráfica patente em todas as suas páginas. Uma história que, no dizer de Roussado Pinto, era a preferida do próprio E.T. Coelho e que merecia já ter sido também reeditada em álbum, como outros grandes clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa.

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