ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 8

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (4) – por O. Henry

Resumo: Depois de cumprir uma pena curta por roubo, Jimmy Valentine decide aparentemente regressar ao bom caminho, seguindo o conselho do director da prisão.

Mas os roubos sucedem-se, deixando vazios os cofres de alguns bancos, e as suspeitas do detective Ben Price voltam a cair sobre Jimmy — que, entretanto, ao chegar à cidade de Elmore, foi atingido certeiramente pela flecha de Cupido e está prestes a desposar a encantadora Annabel Adams, filha de um próspero banqueiro local.

 Nota: depois do texto, com tradução de Raul Correia, publicado n’O Mosquito nºs 1038 e 1039, em Junho de 1949, apresentamos as duas últimas páginas da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista americano Gary Gianni e dada à estampa, em 1990, num volume da colecção Classics Illustrated (publicado também no Brasil). Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O Henry - O destino de J Valentine   003

IV

 MR. ADAMS, ra­diante de satisfação, explicava a manobra do cofre a Mr. Ralph Spencer, que lhe prestava uma atenção superficial e não muito compreensi­va. As duas pequenitas, May e Agatha, esta­vam encantadas com o brilho dos cromados e a leveza dos fechos, que lhes pareciam brin­quedos.

Ora, enquanto o alegre grupo assim con­versava, Ben Price entrou no Banco e encostou-se a uma ombreira, olhando distraida­mente em volta. A um empregado que se lhe dirigiu, o detective respondeu que não queria nada, que estava só à espera de uma pessoa sua conhecida.

E, de repente, ouviram-se dois gritos femini­nos e houve uma comoção geral. Sem que ninguém tivesse dado por isso, May, a mais velha das duas pequenitas, tinha empurrado Agatha para dentro da casa-forte, e empur­rara as portas — tão leves quanto sólidas — e dera volta ao fecho… que uma só mão po­dia manobrar!…

O velho banqueiro, muito pálido, precipitou-se, mas não chegou a tempo! Num gesto instintivo tentou abalar as portas… Depois, num murmúrio rouco, disse:

— As… as por­tas não podem abrir-se! Não se coordenou… a… a combinação com o relógio!

A mãe de Agatha soltou um brado doloro­so e agudo. Mr. Adams aproximou-se outra vez da porta e gritou, com uma voz que tremia:

— Agatha! Agatha!… Por favor, calem-se, deixem-me ouvir! Agatha! Ouves-me?

No silêncio que se seguiu, puderam distinguir-se os ecos sumidos dos gritos de pavor da pequenita, fechada lá dentro, na escuridão da casa-forte.

A mãe soluçava. — Por Deus! Ela vai mor­rer de medo! Abram a porta! Oh! Abram essa porta! Por favor! Ninguém pode fazer nada? Oh! Por favor!

— Só… só em Little Rock é que há um ho­mem capaz de abrir isto… se for!… — disse o velho Adams, em voz rouca. — Meu Deus! Que fazer, Spencer? Não haverá tempo para ir buscar esse homem! A pequenita vai morrer sufocada ou em convulsões de medo, antes que seja possível salvá-la!

A mãe de Agatha, como doida, batia com ambas as mãos nas portas da casa-forte. Hou­ve alguém que falou em dinamite… Annabel voltou-se para Jimmy, com um brilho de angústia no olhar. Mas sentia-se que ainda tinha uma esperança… porque, para uma mu­lher que ama, nada lhe parece existir que não possa ser feito pelo homem a quem ama.

— Ralph! Não poderás fazer alguma coisa? Oh! Tenta, Ralph!

Ele olhou-a, e nos seus lábios como nos seus olhos havia uma espécie de estranho sorriso.

— Annabel… — disse ele… — Queres dar-me essa rosa que tens na tua blusa?

Annabel fitou-o com um profundo espanto, acreditando que não tinha ouvido bem. Mas desprendeu a rosa que tinha na blusa e pô-la na mão dele. Jimmy guardou a flor na algi­beira do colete, despiu o casaco, arregaçou as mangas da camisa… e, com esse gesto, Mr. Ralph D. Spencer desapareceu, para lugar a Jimmy Valentine.

— Afastem-se dessa porta, todos vocês!… — ordenou ele numa voz seca e autoritária, que não admitia réplica.

Apanhou a sua maleta, colocou-a em cima de uma secretária e abriu-a. Parecia incons­ciente da presença de toda aquela gente à sua volta. Assobiando baixinho, como sempre fazia enquanto «trabalhava», dispôs as ferramentas em ordem. Os outros olhavam-no quase sem respirar, como sob um encantamento.

Em menos de um minuto, um dos rebrilhan­tes utensílios de aço começou a «morder» a espessa e sólida chapa de metal. Em dez mi­nutos — batendo todos os seus próprios recordes «profissionais» — Jimmy Valentine deu volta aos fechos de segredo e abriu as portas da casa-forte.

Agatha, quase desmaiada mas sã e salva, foi recolhida nos braços da mãe.

Jimmy Valentine baixou as mangas da camisa, guardou as ferramentas na maleta, ves­tiu o casaco e encaminhou-se para a saída do Banco, sem olhar para ninguém. Pareceu-lhe ouvir uma voz trémula, uma voz que bem co­nhecia, chamar: — Ralph!… Mas não se vol­tou nem afrouxou o passo.

À porta, o vulto de um homem alto e forte obstruía a passagem.

— Hello, Ben!… — disse Valentine, ainda com o seu estranho sorriso. — Por fim, sem­pre cá chegou, hein? Bom, vamos andando! Agora o caso não tem a mais pequena importância para mim!…

— Creio que está enganado, Mr. Spencer! Não me lembro de o ter encontrado antes, em parte nenhuma! Parece-me que tem o seu car­ro à espera, Mr. Spencer! Não é? Pois muito boa viagem!…

E Ben Price, voltando-se, afastou-se em passo largo ao longo da rua…

F I M

A Regeneração - 8 e 9

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s