RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 1

O autor “bicéfalo” que escrevia “O Mosquito”

Raul Correia (1094-1985)Com uma prosa inimitável, duma sonoridade quase cristalina, aliada a uma fluência de água corrente e a uma singeleza sem artifícios, capaz de fazer inveja a muitos escritores de maior nomeada, Raul Correia — fundador e director dO Mosquito, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio) — escreveu novelas de todos os géneros, com destaque para as de temática policial, em que criou diversos detectives de primeiro plano (James Donald, Rudy Carter, Ronald Campbell e outros), embora as suas preferências se inclinassem para as aventuras de ambiente histórico, como demonstrou mais tarde, ao tornar-se argumentista, fazendo dupla com o grande ilustrador Eduardo Teixeira Coelho.

Rudy CarterSão poucos os dados biográficos sobre aquele que ficou também conhecido pelo heterónimo de Avozinho — autor de poemas (em prosa e em verso) de lírica sensibilidade, que encantavam e educavam moral- mente a miudagem, a qual (salvo raras excepções) nunca soube o seu verdadeiro nome —, mas o que me interessa sobretudo analisar é o seu estilo novelístico, à luz da minha própria experiência como leitor, desde tenra idade, dO Mosquito.

Deixo para Alexandre Correia, neto do grande novelista e que herdou também a sua veia literária, a grata tarefa de escrever um texto biográfico sobre o avô, cuja companhia partilhou intimamente durante muitos anos. Texto esse que em breve aparecerá, com o devido destaque, n’O Voo d’O Mosquito, recheado de factos curiosos que darão a conhecer algumas facetas mais pessoais daquele que muitos recordam apenas pelo nome de Avozinho.

Mosquito 28 - 1 e 2

mosquito-379-Se a influência do Avozinho foi enorme, embora restringida por longos períodos de ausência, a do escritor Raul Correia, sempre presente em todas as fases dO Mosquito, do primeiro ao último número, mesmo quando não assinava a sua cola- boração, essa foi ainda mais importante. O título que dei a este primeiro artigo (de uma série de onze) reflecte assim, creio que simbolicamente, esse binómio que todos os leitores d’O Mosquito festejavam, sem conhecer a sua raiz comum.

Raul Correia parecia cultivar a famosa máxima de Hemingway: “Uma risca a menos não altera a pele do tigre, mas uma palavra a mais mata qualquer história”. Algumas das principais características do seu estilo, a fluência narrativa, o poder descritivo e a icástica simplicidade do verbo, livre de quaisquer redundâncias estéticas (como hoje parece estar na moda), resultam, além disso, da síntese homogénea entre a forma literária e uma linguagem cinética.

Amanaque o mosquito e a formiga   191Em tudo o que escreveu — mas particularmente nos seus contos e novelas — o ritmo flui dinâmica e harmoniosamente e a acção progride numa sincro- nia absoluta de planos, como os destinatários da sua prosa, ou seja, o público infanto-juvenil, estavam habituados a ver no cinema. Foi esse ritmo cinematográfico que Raul Correia transpôs para o seu estilo novelístico, aliando como poucos a sobriedade da forma à intensidade da emoção.

Um bom exemplo do apurado domínio dessa técnica narrativa — que utilizava também, com outros fins, nos poemas em prosa do Avozinho — é o conto Jim Daddy (Jim Papá, numa tradução à letra), publicado pela 1ª vez no Almanaque O Mosquito e A Formiga, em finais de 1944, quando O Mosquito já ia no seu 8º ano de publicação — e Raul Correia no 10º ano da sua carreira de novelista —, e reeditado, quase quatro décadas mais tarde, no Mundo de Aventuras nº 429 (2ª série), de 31 de Dezembro de 1981, com ilustrações de Augusto Trigo.

Jim Daddy - cabeçalho trigo188

Refira-se, a propósito, que a primeira versão desse conto foi ilustrada por um dos mais talentosos colaboradores artísticos d’O Mosquito, Vítor Péon, que entrou ao serviço do popular bissemanário em Abril de 1943, pouco tempo depois de E.T. Coelho — a quem coube a tarefa de ilustrar, substituindo com as suas pujantes imagens as de anónimos desenhadores ingleses, alguns dos melhores originais de Raul Correia, com destaque para a longa novela “Aventuras de Jim West”, recebida pelos leitores com grande entusiasmo.

Quanto a Jim Daddy é talvez o conto de acção em que, de forma mais emotiva, perpassa a “sombra” do Avozinho — numa dualidade que, às vezes, transparece, como por acaso, noutras obras de Raul Correia.

Aqui têm, pois, uma pequena “jóia” do conto policial, como exemplo dessa transfusão de estilos, que aos leitores mais argutos d’O Mosquito deu certamente razões para pensarem na verdadeira identidade do Avozinho.

Jim Daddy - 1 & 2

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