ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 7

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (3) – por O. Henry

Resumo: Depois de sair da prisão, onde cumpriu uma pena curta por roubo, Jimmy Valentine, cuja habilidade como arrombador de cofres faz dele o suspeito nº 1 do detective Ben Price, decide aparentemente regressar ao bom caminho, dedicando-se a outras actividades.

Mas os roubos sucedem-se, deixando vazios os cofres de vários bancos, e as suspeitas de Ben Price voltam a recair sobre Jimmy — que, entretanto, ao chegar à cidade de Elmore, foi alvejado certeiramente pela flecha de Cupido…

Nota: Além do texto, com tradução de Raul Correia, publicado n’O Mosquito nºs 1037 e 1038, em Junho de 1949, apresentamos mais três páginas da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista norte-americano Gary Gianni (a sua obra de estreia na BD) e dada à estampa, em 1990, num volume da colecção Classics Illustrated. Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O Henry - O destino de J Valentine   003

III

JIMMY DIRIGIU-SE ao Planter’s Hotel, pediu um quarto e deu o nome de Ralph D. Spen­cer. Encostado ao balcão, conversou com o empregado, contando-lhe a sua história. Declarou que era um comerciante e industrial, farto da vida das grandes cidades, e que vie­ra a Elmore em busca de uma oportunidade para instalar um negócio. Tinha pensado numa sapataria… Que tal era o movimento comercial em Elmore? Haveria probabilida­des para o negócio de calçado?

Impressionado pela elegância e boas manei­ras de Jimmy, o empregado do Hotel pôs-se inteiramente à sua disposição. Ele próprio era uma espécie de árbitro de elegâncias den­tro do pequeno âmbito da cidadezita, mas à vista de Valentine compreendeu imediata­mente as suas insuficiências. E, enquanto analisava com imensa atenção o perfeito nó de gravata do hóspede, abriu-se em informações detalhadas.

Sem dúvida, na sua opinião, o negócio de calçado podia oferecer perspectivas muito boas. Não havia nenhum estabelecimento da especialidade em Elmore. Eram os armazéns gerais e os fanqueiros que vendiam sapatos à população… De resto, todo o movimento comercial da cidade prometia um futuro interessante. Esperava que Mr. Spencer gostasse da terra e ali se estabelecesse. Elmore era uma cidade agradável para se viver, e a população muito hospitaleira e so­ciável.

Mr. Spencer declarou que ficaria ali por alguns dias, pelo menos, para observar a si­tuação. Não, não era preciso chamar o rapaz para levar a mala. Ele mesmo a levaria.

— É um bocado pesada, sabe? Não se in­comode!…

Mr. Ralph Spencer — a fénix que surgira das cinzas de Jimmy Valentine, cinzas deixadas por uma súbita e violenta labareda de amor à primeira vista — fixou-se em Elmore e prosperou. Alguns meses depois da sua che­gada à cidade, a loja de calçado fazia um mo­vimento dos mais interessantes, e tinha tanta clientela quanta poderia desejar-se.

Do ponto de vista social, Mr. Spencer tam­bém conseguira um êxito completo. Contava apenas amigos. E o desejo do seu coração ti­nha sido realizado, porque fora apresentado a miss Annabel Adams e sentia-se cada vez mais enfeitiçado pelos seus encantos.

Regeneração 5Ao cabo de um ano, a posição de Mr. Ralph Spencer era a seguinte: tinha conquistado a estima e o respeito da comunidade, a sua loja era a mais próspera de Elmo­re, e ele e miss Annabel haviam combinado o casamento para daí a duas semanas. Mr. Adams, um simples, franco e característico banqueiro de cidade provinciana, aprovava plenamente a escolha feita por sua filha. Miss Annabel tinha pelo noivo um orgulho que qua­se igualava o afecto que lhe dedicava. E Mr. Spencer estava em casa dos Adams, ou em casa da irmã de Annabel, que era casada, tão à vontade como em sua própria casa. To­dos o consideravam como se ele já pertencesse, de facto, à família. Ora uma tarde, fechado no seu quarto, Jimmy sentou-se em frente da secretária e escreveu a seguinte carta, que endereçou para a morada de um velho amigo, em St. Louis:

«Caro camarada, preciso que venhas à locanda do Sullivan, em Little Rock, na próxima quarta- -feira, às nove horas. Quero pedir-te para te encarregares de umas coisas do meu interesse. Ao mesmo tempo, tenho um presente para ti, que é a minha colecção de ferramentas. Sei que gostarás de ficar com ela, e nem por um milhar de dólares poderias arranjar outra igual.

Bem vês, eu retirei-me dos velhos negócios há um ano. Tenho uma loja, estou resolvido a fazer a vida de um homem honesto, e daqui a duas semanas vou casar com a rapariga mais bonita e decente que há neste mundo. Não há vida melhor do que esta, uma vida às direitas. Agora não seria capaz de tocar num cêntimo que não fosse meu, nem por um milhão de dólares. Depois de casar, vendo a loja e vou para o Oeste, onde não haja tanto risco de ver o meu passado cair-me, de repente, em cima.

Digo-to eu, Billy, ela é um verdadeiro anjo. Tem confiança em mim e por nada deste mundo eu deixaria de merecer essa confiança. Não deixes de estar no Sullivan’s, quarta-feira, porque preciso muito de falar contigo. Nessa altura, levo as ferramentas.

Teu velho camarada, Jimmy»

Na segunda-feira da semana seguinte ao dia em que Jimmy escreveu esta carta, Ben Price chegou discretamente a Elmore, num carro puxado por cavalos. Circulou pela cidade sem dar nas vistas, à sua maneira, e obteve todas as informações que queria obter. Através da montra de um Bar que havia em frente da loja de calçado, ele pôde observar Mr. Ralph Spen­cer à sua vontade.

— Com que então o Jimmy vai casar com a filha do banqueiro da terra!… — disse Ben Price para os seus botões. — Hum! Não é coisa muito certa, esse casamento!…

Na manhã de terça-feira, Jimmy almoçou em casa dos Adams. Ia partir para Little Rock antes da tarde, para tratar do seu fato de ca­samento e também para comprar uma prenda bonita para Annabel. Era a primeira vez que saía da cidade, depois da sua chegada a Elmore. Tinha decorrido mais de um ano sobre a sua última proeza «profissional», e ele pensava que não haveria grande risco na viagem.

Depois do almoço, foi um alegre grupo fa­miliar que saiu para a rua: Mr. Adams, Annabel, Jimmy e a irmã casada de Annabel, com as suas duas filhinhas, uma de cinco anos e outra de nove. Passaram pelo Hotel, onde Jimmy estava ainda instalado, e ele su­biu ao quarto para ir buscar a sua maleta. Daí foram ao Banco, perto do qual estava a caleche e o cocheiro que haviam de transportar Jimmy à estação de caminho-de-ferro.

Era cedo ainda e entraram no Banco. Jim­my também, como era natural, tanto mais que o futuro genro de Mr. Adams era bem-vindo em toda a parte. Os empregados do Banco apreciavam a companhia e a conversa do elegante e simpático rapaz que ia casar com a filha do patrão. Jimmy pousou a ma­leta no chão, enquanto esperavam.

Então, Annabel, que tinha a alegria e a vivacidade das pessoas que se sentem comple­tamente felizes, pôs o chapéu de Jimmy na cabeça e pegou na maleta.

— Não é verdade que pareço mesmo um homem de negócios?… Oh! Como a tua maleta é pesada, Ralph! Parece que está cheia de barras de ouro!…

— Uma porção de formas de metal que vou devolver — explicou Jimmy, tranquilamente. — Aproveito a viagem e poupo dinheiro no transporte! Estou a tornar-me económico a valer!…

O Banco de Elmore tinha justamente insta­lado, dias antes, um novo cofre e uma casa-forte. Mr. Adams, que se sentia orgulhoso daqueles melhoramentos, insistiu para que todos fossem ver. A casa-forte era pequena, mas tinha uma fechadura que se fechava por um processo moderno e patenteado. Um sim­ples fecho, que se podia manobrar com uma só mão, cerrava simultaneamente três fecha­duras de aço. Tudo aquilo era de uma leveza e, ao mesmo tempo, de uma solidez absolutas. Bastava conhecer o mecanismo e preparar a manobra do «segredo», o que se fazia coorde­nando uma espécie de movimento de relógio com a combinação dos fechos.                                                                                   (continua)Regeneração 6 e 7

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