ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 6

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (2) por O. Henry

Resumo: Depois de sair da prisão, onde passou apenas alguns meses, Jimmy Valentine, um notório ladrão de bancos, que a polícia tinha debaixo de olho por causa da sua extrema facilidade em arrombar qualquer tipo de cofres, regressa ao seu quartel-general para reaver as “ferramentas” do ofício escondidas numa maleta.

Apesar dos conselhos do director da penitenciária, Jimmy está disposto a retomar sem demora a sua lucrativa profissão. Mas o destino vai trocar-lhe as voltas… e as intenções de Mr. Valentine tomarão repentinamente um rumo mais honesto.

O Henry - O destino de J Valentine   003

II

UMA SEMANA depois da libertação de Valentine, deu-se um caso de ar­rombamento de cofre em Richmond, Estado de Indiana, sem que fos­se possível encontrar a mais pequena pista quanto ao autor da proeza. Desaparece­ram uns simples oitocentos dólares. Duas se­manas mais tarde, foi a vez da cidade de Logansport, onde um cofre à prova de fogo, de roubo, de inundações e de outras coisas ainda, foi aberto como se não passasse de uma vulgar melancia. Sumiram-se mil e qui­nhentos dólares em notas. Documentos e jóias ficaram onde estavam. Nesta altura, o caso co­meçou a interessar vivamente a polícia. En­tão, um outro cofre, num Banco em Jefferson City, entrou em actividade e expulsou das en­tranhas uma pequena avalanche de notas: cinco mil dólares foi o total apurado.

As perdas começavam a ser bastante gran­des para que o assunto entrasse na esfera de acção do detective-chefe Ben Price. Compa­rando apontamentos, notou-se uma flagrante semelhança de métodos entre os vários rou­bos. Ben Price procedeu a investigações nos próprios locais, e houve quem o ouvisse di­zer:

— Isto tem a assinatura de Jimmy Valen­tine! Portanto, ele voltou ao ofício! Só ele se­ria capaz de abrir um cofre desta maneira! Nunca faz mais do que um orifício nas cha­pas… Um artista! Bem, parece-me que tenho de me pôr outra vez em busca do elegante Valentine… e quando o apanhar há-de cum­prir a pena por inteiro, sem tolices de comu­tações e maroteiras desse género! Um artista perigoso, é o que é! Os cofres mais compli­cados não passam de caixas de charutos para ele!… Um artista!…

Ben Price conhecia os hábitos de Jimmy Valentine, porque os tinha estudado quando se ocupara do caso de Springfield. Operava em lugares distantes uns dos outros, desapa­recia como fumo, não tinha nunca cúmplices e gostava de se relacionar com gente impor­tante — uma das razões porque era difícil apanhá-lo ou segurá-lo na cadeia por muito tempo.

Quando correu a notícia de que Ben Price se ocupava do caso, os outros possuidores de cofres-fortes começaram a respirar mais à vontade.

Ora, uma tarde, Jimmy Valentine e a sua maleta desceram da malaposta do correio em El­more, uma pequena cidade a cinco milhas do mais próximo caminho-de-ferro, perdida na região central do Estado de Arkansas. Jimmy, com o aspecto desportivo de um atleta universitário, atravessou a rua e encaminhou-se para o Hotel.

Uma rapariga elegantemente vestida cruzou-se com ele no caminho e entrou num edi­fício em cuja fachada se lia o nome de «Banco de Elmore». Jimmy Valentine olhou para ela, viu num relance o brilho de uns olhos gran­des e risonhos… e a partir daquele instante esqueceu-se de quem era. Tornou-se, de repente, um outro homem. Ela reparou nele e corou ligeiramente. Os rapazes com o aspecto e a elegância de Jimmy Valentine não abun­davam em Elmore…

Jimmy parou e chamou um garoto que es­tava sentado à porta do Banco como se fosse um dos accionistas. Deu-lhe uma moeda e começou a fazer-lhe perguntas sobre a cidade, e mais isto e mais aquilo… Passou um bo­cado, e eis que a rapariga sai… e finge que não repara em Jimmy, e segue o seu cami­nho.

— Oh!… — exclamou Valentine. — Ia jurar que é miss Polly Simpson!

— Nada disso!… — logo explicou o garo­to. — É miss Annabel Adams, filha do dono deste Banco! O senhor o que é que vem fazer cá para a terra? Olhe lá, a sua corrente de relógio é mesmo de oiro? Sabe? Vou ter um bulldog pequenino, que me dá o Bill! É ca­tita! Não tem aí mais moedas?

Jimmy dirigiu-se ao Planter’s Hotel, pediu um quarto e deu o nome de Ralph D. Spen­cer. Encostado ao balcão, conversou com o empregado, contando-lhe a sua história. Declarou que era um comerciante e industrial, farto da vida das grandes cidades, e que vie­ra a Elmore em busca de uma oportunidade para instalar um negócio. Tinha pensado numa sapataria… Que tal era o movimento comercial, em Elmore? Haveria probabilida­des para o negócio de calçado?

Impressionado pela elegância e boas manei­ras de Jimmy, o empregado do Hotel pôs-se inteiramente à sua disposição. Ele próprio era uma espécie de árbitro de elegâncias den­tro do pequeno âmbito da cidadezita, mas à vista de Valentine compreendeu imediata­mente as suas insuficiências. E, enquanto analisava com imensa atenção o perfeito nó de gravata do hóspede, abriu-se em informações detalhadas.

Sem dúvida, na sua opinião, o negócio de calçado podia oferecer perspectivas muito in­teressantes. Não havia nenhum estabeleci­mento da especialidade, em Elmore. Eram os armazéns gerais e os fanqueiros que vendiam sapatos à população… De resto, todo o mo­vimento comercial da cidade prometia um futuro interessante. Esperava que Mr. Spencer gostasse da terra e ali se estabelecesse. Elmore era uma cidade agradável para se viver, e a população muito hospitaleira e so­ciável.

Mr. Spencer declarou que ficaria ali por alguns dias, pelo menos, para observar a si­tuação. Não, não era preciso chamar o ra­paz para levar a mala. Ele mesmo a levaria.

— É um bocado pesada, sabe? Não se in­comode!…

                                                                                                                          (Continua)

Nota: Apresentamos seguidamente mais duas páginas (correspondentes ao texto) da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista americano Gary Gianni e publicada em 1990 num volume da colecção Classics Illustrated. Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O' Henry - A regeneração 3 e 4

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