NOVELISTAS D’O MOSQUITO – 1

EM JEITO DE INTRODUÇÃO

ABczinho 165      006Corriam os anos 20 e 30 do século passado quando as novelas de aventuras de estilo moderno se estrearam no ABC-zinho e n’O Senhor Doutor; mas foi no Tic-Tac e depois n’O Mosquito, com o seu excelente lote de colaboradores, que este género evoluiu para uma escola mais dinâmica e realista, atingindo a plenitude entre 1936 e 1946 — aquela que podemos intitular «a década gloriosa da novela de aventuras em Portugal».

Até então, os textos, embora tivessem predominância sobre as imagens nas publicações infanto-juvenis, não eram genuínos (à parte os de teor humorístico), isto é, limitavam-se, salvo raras excepções, a copiar servil- mente os modelos vindos de fora, sobretudo de França e Inglaterra, países em cuja produção os directores de algumas dessas revistas, como Cottinelli Telmo, Carlos Ribeiro, Luís Ferreira (Tio Luís), José de Oliveira Cosme e Carlos Cascais, colhiam boa parte das histórias que publicavam nas suas páginas. Tic Tac 163      007Na sua maioria, tratava-se de traduções (ou adaptações) de novelas de autores anónimos. As obras originais de índole aventurosa eram raras, destacando-se, entre os seus autores, os nomes de Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, António Feio e Henrique Samorano, um jovem talentoso que a morte arrebatou prematuramente.

Até meados dos anos 30, o género nunca teve grandes cultores entre as figuras mais distintas da nossa imprensa infantil, algumas delas oriundas do nobre campo das Belas Letras, que à elegância e ao primor da escrita aliavam um cunho didáctico e moralista, bem distante do conceito moderno de aventuras à maneira inglesa e americana.

Coube a um pequeno mas dinâmico “insecto”, concebido em moldes artísticos e comerciais inovadores, modificar de uma assentada esses parâmetros, não só devido à variedade nunca antes vista de histórias aos quadradinhos sugestivamente ilustradas (sobretudo inglesas e espanholas), como ao estilo vigoroso e emocionante das novelas de aventuras, escritas exclusivamente por autores nacionais. Numa primeira época, entre 1936 e 1939, os que mais se distinguiram foram Fidalgo dos Santos, Pedro de Sagunto, Roberto Ferreira (com o acrónimo de Rofer), e sobretudo Raul Correia.

Mosquito 11Lembro-me de que, no alvor da minha mocidade, quando lia avidamente O Mosquito — revista pela qual sentia um carinho especial, apesar de não ter sido a primeira que me veio parar às mãos —, as histórias de texto tinham o condão de me despertar tanto entusiasmo como as histórias ilustradas. Aliás, quer neste jornal quer nos seus concorrentes mais directos (O Senhor Doutor, O Papagaio e o Diabrete), a prosa preenchia ainda boa parte do sumário, atestando o que hoje se perdeu entre a maioria dos jovens: o gosto pela leitura.

Mas n’O Mosquito e no seu companheiro de jornada (durante dois anos) Colecção de Aventuras, até as legendas das histórias aos quadradinhos — que eram como que um prolongamento das histórias de texto, pois primavam pela ausência de filacteras (isto é, de balões) — se liam com interesse, graças ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, a quem cabia a tarefa de as traduzir e adaptar. O director literário d’O Mosquito e autor também dos poemas do Avozinho, escrevia com rara elegância, ora num tom ameno e risonho, ora vibrante e emotivo, equilibrando as duas facetas com notável mestria.

colecção Aventuras 114Alguns desses predicados influenciaram naturalmente os seus colaboradores mais jovens, como Orlando Marques e Lúcio Cardador (que se juntaram à equipa em 1940), embora estes, apesar do seu inegável talento, nunca tenham atingido a craveira do mestre.

Todos os temas clássicos da novela de aventuras, desde as histórias policiais e de cowboys às de fundo histórico ou exótico, figuram na vasta obra de Raul Correia, como se a sua pena prolífica quisesse transmitir ao papel o colorido caleidoscópio de imagens captadas pelos seus olhos e pela sua mente, no convívio assíduo com os livros e com o cinema. Sem um novelista da sua envergadura, é possível que dois amigos inseparáveis, que viviam, então, na Amadora — e já tinham trabalhado juntos no Tic-Tac —, nunca tivessem acalentado o sonho de criar um jornal como O Mosquito; e, nesse caso, todos os novelistas formados na sua escola poderiam, também, nunca ter tido a oportunidade de sair do anonimato.

 A seguir: Raul Correia – A importância de um estilo

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