“O MOSQUITO” À BEIRA DO FIM – 1

mosquito-n-1373 Já decorreram 62 anos… mas parece que foi ontem que tive nas mãos o último número d’O Mosquito, acabado de comprar numa tabacaria do bairro da Graça, em Lisboa, perto do qual a minha família então residia. Esse mês de Fevereiro de 1953 foi decisivo e fatal para O Mosquito. Dez anos antes era quase impossível prever esse desfecho, porque a revista, como já assinalei, estava numa curva ascendente que a conduziria ao pico da fama e do êxito comercial. Como sempre acontece, essa curva começou a declinar num momento crítico, em 1948, quando os dois sócios fundadores se malquistaram e separaram, ficando António Cardoso Lopes Jr. com as oficinas gráficas e Raul Correia com a propriedade do título.

Confrontado com a forte concorrência do Mundo de Aventuras e de um novo e ambicioso rival, o Cavaleiro Andante, que surgiu nas bancas em Janeiro de 1952, Raul Correia — agora sozinho ao leme da nau administrativa — teve de forçar a barra e procurar novos rumos. As escolhas não foram fáceis… numa altura em que as tiragens diminuíam a olhos vistos e o dinheiro começava a faltar para pagar a tempo e horas aos colaboradores, às oficinas, aos fornecedores de papel e de material para publicação. Um bico de obra que deve ter tirado muitas horas de sono a Raul Correia, embora se tivesse associado a António Homem Christo, mosquito-n-13871o homem forte da Editorial Organizações, empresa com sólidas raízes no mercado e que já há muitos anos era distribuidora d’O Mosquito.

Em tempo de “vacas magras”, como agora, fazem-se contas à vida e corta-se no que se pode cortar (às vezes, até no mais essencial). No caso d’O Mosquito foi o contrário… A revista, que regressara ao tamanho pequeno no nº 1201, de 27/12/1950, voltou a aumentar de formato e reduziu o número de páginas de 16 para 12 — mas, na verdade, quase o duplicou, atendendo às novas medidas —, a partir do nº 1373, de 20/8/1952, cujo renovado aspecto gráfico parecia augurar um futuro mais auspicioso. Entre outras razões para não desiludir as expectativas dos leitores fiéis, havia o regresso de E.T. Coelho, cujo esplêndido traço criou um novo e sugestivo cabeçalho e se esmerou na adaptação de mais alguns contosmosquito-n-1396 de Eça de Queirós: “O Tesouro”, “A Aia” e “S. Cristóvam”.

O reforço era precioso, depois de uma longa ausência, e os leitores embandeiraram em arco. Continuando a ser bissemanário, o que talvez tivesse sido a opção mais errada, O Mosquito apresentava ainda uma boa selecção de histórias inglesas e americanas, que destoavam largamente, pela sua temática, das que publicara em tempos idos. Eram histórias para adultos (como, aliás, as do Mundo de Aventuras), destinadas aos jornais diários e não às revistas juvenis, mas a sua estrutura narrativa, em moldes muito mais modernos, impôs-se rapidamente aos leitores, cuja consciência crítica e maturidade selectiva talvez não fossem tão ligeiras como alguns pensariam. Aliás, comparativamente à década anterior, O Mosquito já não era lido em larga percentagem por crianças da 4ª classe, mas por adolescentes que andavam no liceu ou na escola comercial e alguns, até, na faculdade.

Mas para não alongar demasiado este texto, deixo o resto da história para o próximo “número”, como se dizia e escrevia noutros (belos) tempos…

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