O MOSQUITO EM 1943 – 6

Entre os nºs 401 e 411, que hoje apresentamos, O Mosquito regressou à impressão a duas cores (capa e contracapa apenas), não sabemos se por razões económicas ou devido à dificuldade em encontrar papel em condições, além de outro material tipográfico, visto a guerra mundial em curso criar grandes constrangimentos à produção e importação de matérias-primas. A escassez de papel, cujas cores, no “miolo” da revista, mudavam de número para número, teve outras consequências, obrigando O Mosquito a pedir desculpa aos leitores, pelo atraso com que chegava às bancas.

mosquito-114-o-capitc3a3o-meia-noite1No entanto, apesar de todos esses problemas, as novidades continuaram a aparecer, com des- taque para uma história que se estreou no nº 403, depois de terminada, no número anterior, a longa saga de aventuras da Polícia Montada “Ao Serviço da Lei”, com magníficos desenhos de Hilda Boswell. Mas os leitores não ficaram a perder, pois a nova série, assinada por outro grande mestre da BD inglesa — nem mais nem menos do que Walter Booth, pioneiro mundial do género aventuroso em estilo realista e criador de séries inolvidáveis como “Pelo Mundo Fora” e “O Gavião dos Mares” —, assinalou o regresso, há muito esperado, de uma das suas maiores criações, “O Capitão Meia-Noite”, cujos primeiros episódios tinham aparecido cinco anos antes n’O Mosquito, com um sucesso que excedera todas as expectativas.

cap-meia-noite-2Muitos leitores se lembravam ainda da figura do galante e misterioso cavaleiro mascarado que, na melhor tradição dos heróis de capa e espada, protegia os pobres, os oprimidos, as viúvas e os órfãos, contra a arrogância e a perfídia dos poderosos, numa época em que muitos condados ingleses estavam nas mãos de uma aristocracia despótica e corrupta, que espezinhava sem escrúpulos as classes mais humildes. Mas alguém lhes fazia frente, em defesa do bem e da justiça, combatendo as suas leis e os seus actos iníquos, perseguindo-os sem tréguas pelas estradas e até no interior dos seus castelos, oferecendo protecção a todas as suas vítimas: o intrépido Capitão Meia-Noite, que montado no seu negro corcel, galopava à rédea solta em noites de luar, fazendo jus ao seu nome (em inglês, Captain Moonlight) — um furtivo e irónico justiceiro, destro no manejo da espada e das pistolas com que desafiava os seus inimigos, imune ao perigo e aos obstáculos que lhe surgiam no caminho, pois escapava, com espantosa agilidade, a todas as armadilhas, saindo sempre vencedor do confronto com os seus perseguidores.

Claro que para os leitores d’O Mosquito a sua identidade não era segredo: desde o princípio que todos sabiam que sob a mascarilha do Capitão Meia-Noite se escondia o rosto de Dick Martin, o respeitado ferreiro da aldeia de Portsea, cujo modesto e pacato ofício o afastava de qualquer suspeita. E essa dualidade entre o homem simples e o aventureiro, cuja audácia e galhardia lhe conferiam autênticos pergaminhos de nobreza (mais tarde consagrada num título de barão), nimbava este intrépido personagem com um halo ainda mais heróico, tornando-o um dos maiores ídolos da rapaziada desse tempo.

No mesmo número — em substituição de “Nas Montanhas da Índia”, concluída na edição anterior —, surgiu outra série com desenhos de Walter Booth, desta vez ambientada no Oeste americano: “Luta Sem Tréguas”. Mas, apesar da acção trepidante, era uma criação sem o fulgor artístico de que o mestre já dera sobejas provas noutras obras mais grandiosas, e que teve, aliás, na parte final, o concurso de um medíocre ajudante, cujo nome não passou à História.

mosquito-409-falsa-acusação-1Basta compará-la com “Falsa Acusação”, o primeiro western de um autor português publicado n’O Mosquito, para que as diferenças saltem à vista, com nítida vantagem para o estilo dinâmico e vigoroso de Vítor Péon e para as peripécias em que este já revelava um magistral sentido da acção cinética, da montagem rítmica (apesar das vinhetas entremeadas com legendas didascálicas) e do suspense no final de cada episódio. Sem dúvida por isso, e por outras razões, “Falsa Acusação” tornou-se um dos maiores êxitos d’O Mosquito, nesse ano memorável de 1943, abrindo ao jovem artista as portas de uma carreira coroada por uma frenética e prodigiosa actividade.

Nesta etapa do popular bissemanário dirigido por António Cardoso Lopes Jr. e Raul Correia, a longa e emocionante novela de Roberto Ferreira, “Sunyana, o Rebelde”, continuou a merecer honras de capa, ilustrada com intenso realismo anatómico por um jovem E. T. Coelho, cujo estilo, em franco progresso, alardeava equilíbrio estético, rigor e dinamismo de linhas à altura dos maiores mestres. Nos nºs 406 e 410, o destaque foi para o “Capitão Meia-Noite”, em composições menos movimentadas, que contrastam, apesar das poses heróicas, com o vigor e a emoção de “Sunyana”.

Resta assinalar ainda, embora num plano bastante inferior, duas novas histórias italianas: “Os Abutres de Kandahar” (iniciada no nº 404, com o regresso de Dinamite) e “A Rainha de Ofir” (em estreia no nº 410), cujos créditos pertencem a Vitaliano Bertea e Umberto Nova, desenhadores de modesta craveira comparativamente aos seus congéneres ingleses,mosquito-anúncio-dos-modelos-sólidos mas que se destacavam pelo uso de uma linguagem mais moderna, com o discurso directo em balões (filacteras) e legendas manuais intercaladas nas imagens.

Nos nºs 401 e 404 surgiram mais duas páginas de curiosidades, com ilustrações de E. T. Coelho, e no nº 407 (que, por erro tipográfico, ostenta, nalguns exemplares, o número e a data da edição anterior), ETC ilustrou também um pequeno anúncio de “modelos sólidos” de aviões e barcos, que eram vendidos na redacção d’O Mosquito. Mais adiante, no nº 409, os concursos “Relâmpago” regressaram, com duas perguntas que apelavam ao raciocínio dos concorrentes.

anuncio-estrelas-de-cinema457No nº 408, chamava a atenção (e aguçava a curiosidade dos leitores) o anúncio de uma nova série de separatas, dedicadas a artistas de cinema e ases desportivos… mas disso falaremos com mais detalhe no próximo artigo.

mosquito-401-e-402mosquito-403-e-404mosquito-405-e-406 mosquito-406-a-e-408mosquito-409-e-410mosquito-411-e-sunyanamosquito-sunyana-2-mosquito-sunyana-31mosquito-sunyana-4-e-5-mosquito-sunyana-62mosquito-curiosidades-1-e-2mosquito-montanhas-da-Índia-ao-serviço-da-lei-1mosquito-capitão-meia-noite-1-e-2mosquito-luta-sem-tréguas-1-e-23mosquito-falsa-acusação-2-e-31mosquito-os-abutros-e-a-rainha-de-ofir

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