O ABC DA BD (A EVOLUÇÃO DE UMA ARTE)

António Martinó 2No nosso blogue “irmão”, O Gato Alfarrabista, já nos referimos várias vezes ao magnífico e ecléctico trabalho desenvolvido pelo Professor António Martinó de Azevedo Coutinho desde que aderiu abertamente à blogosfera, criando um espaço de frutuoso convívio cultural no seu notável (sob vários prismas) blogue Largo dos Correios, onde a BD tem tido também lugar de grande destaque.

Cabe agora ao Voo d’O Mosquito registar, com a devida vénia, um desses trabalhos, subordinado ao título “O ABC da BD”, que com exemplos bem elucidativos ilustra várias etapas da evolução da arte sequencial dos quadradinhos, reflectindo também sobre a sua intrínseca afinidade com as artes plásticas (a cor) e o cinema (o movimento).

mick mock e muck054Porque os temas abordados e os exemplos escolhidos, até agora, têm relação próxima com a emblemática revista que patrocinou a criação deste blogue, achámos que a sua divulgação nas nossas colunas seria uma forma de homenagear não só o Largo dos Correios como a própria Arte que o Professor António Martinó tão pedagogicamente cultivou em colóquios, exposições, fanzines, workshops e outras moda- lidades interdisciplinares ligadas aos meios audiovisuais, durante a sua longa carreira docente.

Aqui têm, pois, um desses temas, com a explanação de algumas formas de representar a dinâmica cinética, isto é, o movimento, nas imagens estáticas e a duas dimensões das histórias aos quadradinhos — que carecem das técnicas mecânicas descobertas pelos irmãos Lumière, mas souberam inventar outras, mediante artifícios gráficos que transcendem a imobilidade do traço pela sugestão (e ilusão) do movimento onde ele não existe.

São dois exemplos separados por dez anos de distância: o primeiro, Cuto - castelo do terror091com o pitoresco traço humorístico de Arturo Moreno, publicado n’O Mosquito em 1936; o segundo, com a apurada (e ini- mitável) arte realista de Jesús Blasco, outro célebre desenhador espanhol, criador de uma aventura de Cuto publicada nas mesmas páginas em 1946.

Ao Largo dos Correios deixamos aqui uma larga vénia e a profunda expressão do nosso reconhecimento por nos proporcionar a partilha destes preciosos trabalhos. Aproveitem a “deixa” para aceder nos respectivos links aos outros artigos sobre o mesmo tema.

http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/09/28/o-a-b-c-da-b-d-um/

http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/10/01/o-a-b-c-da-b-d-dois/

http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/10/09/o-a-b-c-da-b-d-quatro/

O LARGO DOS CORREIOS

o A.B.C. da B.D. – três

ABC da BD

A representação gráfica do movimento é um dos grandes desafios colocados aos autores de banda desenhada. Quando estudamos o que foi a evolução dos quadradinhos encontramos exemplos de soluções ingénuas de início, depois mais elaboradas, até conseguir atingir um domínio dessa representação. Hoje, no respeito pelo estilo pessoal de cada criador, existe uma diversificada panóplia de artifícios gráficos, integrados, que resolvem com eficácia a sugestão da movimentação de personagens e acessórios.
Abordando esta interessante questão, e entre a imensidade de pretextos similares, aqui fica uma proposta experimentada com êxito nas abordagens pedagógicas que o ICAV e a iniciação à linguagem da BD me proporcionaram, nos tempos já distantes da prática docente.

OS PARALÍTICOS E OS FRENÉTICOS

O saudoso jornal O Mosquito foi e é referência incontornável no mundo da nossa Banda Desenhada.

Nas suas páginas podemos encontrar, mais do que algumas histórias antológicas, um vasto material dotado do maior interesse para quem pretenda estudar a evolução da linguagem dos quadradinhos, a diversos níveis.

Recordamos aqui duas simples páginas das aventuras de Mick, Mock e Muck e de Cuto, respectivamente assinadas por dois criadores espanhóis: Moreno e Jesús Blasco. A proposta pedagógica consiste em analisá-las sob o ponto de vista da representação gráfica do movimento, sobretudo naquilo onde se inclui o recurso ao signo cinético, ao efeito “Marey” e, ainda, à onomatopeia.

As diferenças são óbvias e ostensivas.

03 - 01

No primeiro caso, o herói que foge do inimigo cai de uma falésia, precipitando-se sobre as bocarras de esfomeados crocodilos, quando, no último e dramático momento, a âncora salvadora que é lançada de um balão o prende e suspende pelos fundilhos, puxando-o depois até à barquinha…

03 - 02

No segundo caso, o outro herói foge de um fantasma, correndo depois ao longo de uma perigosa e movediça escadaria, a cujas armadilhas escapa mercê de acrobática cambalhota, para logo de seguida evitar por um triz a súbita queda de um mortal pedregulho…

A sensação de uma paralisante narrativa, a primeira, contrasta com a contagiante dinâmica de um frenético relato, o segundo. Muito mais do que pelo estilo plástico ou pela tradução gráfica do argumento, é pelo uso inteligente e oportuno dos imensos recursos da linguagem dos quadradinhos que se justifica a profunda diferença verificada.

É portanto toda uma crónica demonstrativa da profunda evolução dos processos narrativos e do progressivo desenvolvimento das potencialidades da linguagem específica da BD que aqui se pode apreciar. E avaliar.

O Mosquito, na variedade de estilos, de técnicas, de temas e de autores que juntou ao longo da sua apreciável existência, suscita ainda hoje tanto o prazer inestimável da leitura como o pretexto estimulante da pesquisa e da descoberta.

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