“O MOSQUITO” EM 1943 – 2

Uma das particularidades que distinguiam as aventuras d’O Mosquito (e que os leitores de hoje poderão até achar rebarbativa) eram os copiosos textos “didascálicos”, isto é, alinhados debaixo das vinhetas, numa sucessão monótona e uniforme que a ausência de balões tornava ainda mais semelhante a uma narrativa ilustrada. Diga-se de passagem que esses textos eram traduzidos, ou melhor, adaptados (e de que maneira!), por Raul Correia, um dos fundadores do jornal, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio), e seu director literário desde o primeiro número. Raul Correia e a fluidez e expressividade do seu estilo foram responsáveis pelo entusiasmo com que a maioria dos leitores acompanhava essas aventuras, deixando-se empolgar tanto pela magia dos desenhos como pela emoção que o texto transmitia às imagens (e vice-versa).

Nesta nova etapa da sua existência, como bissemanário, já não se publicavam n’O Mosquito aventuras do calibre de “O Gavião dos Mares” ou “O Capitão Meia-Noite”, magistralmente ilustradas por um dos grandes mestres da BD inglesa do século XX: Walter Booth. capitc3a3o-ciclone-grandeMas à falta desses verdadeiros clássicos (o segundo dos quais não tardaria a regressar), o público juvenil deleitava-se com as proezas, iniciadas no nº 360, de outro personagem histórico, o “Capitão Ciclone” (aliás, capitão Firebrand), galante e destemido corsário no reinado de Isabel I, época cheia de tradições, fielmente retratada por outro notável artista inglês que trabalhava no anonimato, embora pertencente a uma família de ilustradores e pintores que ficou célebre nos anais artísticos do Reino Unido: Thomas Heath Robinson.

As restantes histórias aos quadradinhos, também de origem inglesa, “O Mistério da Sala 13”, “Ao Serviço da Lei” e “A Torre do Sino”, eram continuação dos números anteriores. Na capa do nº 374, dava-se grande destaque à separata com uma espectacular construção de armar, representando uma aldeia de índios “peles-vermelhas” desenhada por E. T. Coelho (que até nessa modalidade revelava a sua mestria). O êxito foi tal que o versátil artista, seduzido pelo ambiente do Far West, não se ficou por aí, realizando outras do mesmo género.

Graças à gentileza do amigo Carlos Gonçalves, grande especialista destes temas, a quem expressamos o nosso reconhecimento, podemos apresentar seguidamente quatro folhas da referida construção, que teve um total de dez, inseridas nos nºs 371 ao 380.

folha-3 e 4-peles-verrmelhasfolha- 9 e 10-peles-vermelhas

Note-se que as separatas com construções (incluindo presépios), jogos e figuras para recortar, eram um dos principais motivos de atracção d’O Mosquito, publicando-se com regularidade desde os seus primeiros números.

O nº 374 incluía ainda uma página de curiosidades, primorosamente ilustrada, e o vigoroso conto “A Lei da Campina”, da autoria de Nuno de Vasconcelos (Príncipe de Haraba), que deu o mote a outra magnífica ilustração de E. T. Coelho, com pleno domínio da forma e dos sombreados, e a mais um sugestivo cabeçalho. Dois números depois, era a vez de uma página em que o Avozinho, num tom de carinhosa emoção, se dirigia a um dos seus mais fiéis admiradores, com o lírico pseudónimo de “O Poeta Vagabundo”.

coisas-e-loisas-21Nos nºs 377 e 378, E. T. Coelho brindou os leitores com mais curiosidades, mas a ru- brica mudou de nome: Coisas… e Loisas.

No nº 375, estreou-se “Um Detective de 15 Anos”, outra aventura do género policial — um dos mais populares entre a rapaziada desse tempo —, cujos desenhos, de singular dinamismo e com acentuados contrastes de branco e negro, pareciam operar uma singular metamorfose no tradicional estilo inglês, aproximando-se da escola expressionista de alguns mestres norte-americanos, em particular Noel Sickles, Alex Raymond e Milton Caniff, cuja influência começava a ser enorme.

Criador de séries de ambiente urbano e índole melodramática que alcançaram grande sucesso n’O Mosquito — como “Maria Ninguém” e “João Sem Rumo”, das quais a seu tempo falaremos —. este desenhador, Arthur Mansbridge de seu nome, foi também um dos mais prolíficos colaboradores dos comics ingleses, na primeira metade do século passado, e pai de Norman Mansbridge, artista que granjeou ainda maior reputação.

louisaEntre os novelistas d’O Mosquito, um dos mais assíduos continuava a ser Orlando Marques, que escrevia num estilo límpido e fluente, imprimindo às suas histórias um raro poder emotivo. No nº 375, assistiu-se ao regresso de Raul Correia — cuja actividade como novelista abrandara para dar lugar aos mais novos —, com uma longa e empolgante novela ambientada no Oeste americano, durante os primórdios da colonização (1813).

“Aventuras de Jim West” foi a primeira história em que o nome de Eduardo Coelho fazia as honras do cabeçalho, aparecendo já como ilustrador. No número seguinte, estreou-se o nome com que ficaria conhecido para a posteridade: E. T. Coelho.

capa-mosquito-373 e 374capa-mosquito-375 e 376capa-mosquito-377 e 378curiosidades 842 ecoisas e loisas 843uma-carta-853 e mestre gilo-tesouro-da-planície 3  e 4 373a-lei-da-campina-1 e 2aventuras-de-jim-west-11 e 21aventuras-de-jim-west-3 e 4 - 851a-torre-do-sino-3 e 4um-detective-de-15-anos-1 e 2o-capitão-ciclone-3 e 4o-mistério-da-sala-13-3 e 4ao-serviço-da-lei-3 e 4

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